PF deflagra Operação Zona Cinzenta no Amapá para investigar desvios em fundo previdenciário ligado ao Banco Master
A Polícia Federal cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em Macapá, capital do Amapá, nesta sexta-feira (6), para investigar suspeitas de irregularidades em investimentos da previdência dos servidores do estado. Os recursos teriam sido aplicados no liquidado Banco Master, levantando um montante de cerca de R$ 400 milhões.
A operação, denominada Zona Cinzenta, é um desdobramento da Compliance Zero e foca na aplicação de recursos da Amapá Previdência (Amprev) em papéis considerados de alto risco e sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
De acordo com as informações preliminares, o diretor-presidente da Amprev, Jocildo Lemos, e dois integrantes do comitê de investimentos estão entre os alvos. Os mandados foram expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal e visam apurar a aplicação irregular de R$ 400 milhões do Regime Próprio de Previdência Social do Estado (RPPS/AP) nas chamadas Letras Financeiras, que também foram investigadas no caso do Banco Master. Conforme nota da Polícia Federal, a investigação examina a aprovação e execução de investimentos em Letras Financeiras emitidas por banco privado, apurando os crimes de gestão temerária e fraudulenta.
Diretor-presidente da Amprev e membros do comitê de investimentos são alvos da investigação
A operação desta sexta-feira busca reunir documentos, registros internos e pareceres que possam esclarecer o processo decisório que levou à aplicação dos recursos. O objetivo é identificar os responsáveis e determinar se houve prejuízo ao patrimônio público. Paralelamente, o Ministério Público do Estado do Amapá já apura a compatibilidade dos investimentos com a política do RPPS, investigando se o fundo foi alertado sobre os riscos.
Jocildo Lemos, diretor-presidente da Amprev e um dos alvos da operação, foi indicado ao cargo pelo presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre. O parlamentar, contudo, não é investigado pela Polícia Federal.
Investimentos em Banco Master afetam outros fundos previdenciários pelo país
As suspeitas de irregularidades surgiram após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, revelando que fundos de previdência de servidores de diversos estados haviam alocado recursos na instituição. O Rioprevidência, do Rio de Janeiro, por exemplo, aplicou quase R$ 1 bilhão. O ex-presidente do Master, Deivis Marcon Antunes, foi preso recentemente por suspeita de gestão fraudulenta e desvio de recursos públicos.
Em novembro do ano passado, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Recentemente, o Ministério da Previdência definiu que estados e municípios serão responsáveis por cobrir eventuais prejuízos em fundos previdenciários que investiram em títulos do Banco Master, caso faltem recursos para pagar aposentadorias e pensões. Essa decisão afeta diretamente institutos que aplicaram pelo menos R$ 1,8 bilhão em Letras Financeiras do banco.
Um levantamento indica que pelo menos 18 institutos previdenciários estaduais e municipais aplicaram recursos no Banco Master. Os maiores valores estão no Rioprevidência (R$ 970 milhões), na Amprev do Amapá (R$ 400 milhões) e no Iprev de Maceió (R$ 97 milhões).
Amprev afirma que investimentos seguiram normas e que recursos estão protegidos
Em nota divulgada em 2025, a Amapá Previdência declarou que todas as aplicações realizadas seguiram as normas do Sistema Financeiro Nacional e a política de investimentos do RPPS. A entidade sustentou que, à época dos aportes, o Banco Master estava autorizado a operar e que, após a liquidação, adotou providências para proteger os recursos.
Segundo a Amprev, decisões judiciais garantiram a preservação dos valores necessários ao pagamento de aposentados e pensionistas, com os recursos mantidos em conta específica no Banco do Brasil sob controle judicial. Em um posicionamento mais recente, publicado em 6 de janeiro de 2026, a entidade reiterou que obteve decisão judicial favorável para garantir a segurança dos recursos relacionados a empréstimos consignados, assegurando que os contratos permanecem válidos e os descontos em folha seguem normalmente, sem prejuízo financeiro aos segurados.