Recorde de Empresas em Recuperação Judicial em 2025: Juros Altos e Crise no Agro Ameaçam 2026

Recorde de Empresas em Recuperação Judicial em 2025: Juros Altos e Crise no Agro Ameaçam 2026

Resumo

Empresas em recuperação judicial batem recorde em 2025 e devem aumentar em 2026

O cenário econômico brasileiro em 2025 registrou um marco preocupante: o número de empresas em recuperação judicial atingiu um recorde histórico. Ao todo, 5,6 mil companhias buscaram a Justiça para reestruturar suas dívidas e tentar sobreviver, representando um aumento de 24,3% em relação ao ano anterior.

Apenas em 2025, 1,6 mil empresas recorreram a esse mecanismo, enquanto apenas 561 conseguiram sair do processo com sucesso. Os dados, divulgados pelo jornal Valor Econômico, indicam uma aceleração alarmante no final do ano, com 510 novos pedidos de recuperação judicial no último trimestre, o maior volume já observado na série histórica.

Esse aumento expressivo acende um alerta para 2026, com projeções indicando que o número de empresas em dificuldade pode continuar crescendo. Especialistas apontam a taxa básica de juros elevada, mantida em 15% pelo Banco Central, como um dos principais vilões, encarecendo o crédito e sufocando o fluxo de caixa das empresas.

Juros altos e crédito restrito: a receita para a crise

A dificuldade de acesso a crédito, que já se mostrava mais restrita desde a crise da Americanas em 2023, tende a se agravar. O impacto do rombo bilionário do Banco Master sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) também contribui para um cenário de maior cautela por parte dos credores.

O levantamento revela ainda uma disparada no endividamento das empresas em crise. As 510 companhias que pediram recuperação no último trimestre de 2025 declararam dívidas de R$ 40 bilhões, mais que o dobro dos R$ 16 bilhões registrados no trimestre anterior. Um único caso, o da indústria petroquímica Unigel, responde por quase metade desse valor, com um passivo declarado de R$ 19 bilhões.

Outras empresas de peso como Ambipar, Bombril e Intercement também figuram na lista de companhias que buscam a recuperação judicial para tentar se reerguer diante de um cenário financeiro desafiador.

Agropecuária em xeque: o setor mais atingido pela insolvência

Apesar do recorde geral, o número de empresas em recuperação judicial ainda representa uma parcela pequena do total de companhias ativas no país. No entanto, a gravidade da situação varia entre os setores. A agropecuária se destaca negativamente, com 13,53 empresas em crise a cada mil, seguida pela indústria (6,74) e infraestrutura (4,11).

O Mato Grosso do Sul apresentou a maior alta proporcional de empresas insolventes em 2025, com um crescimento de 84% em um ano, chegando a 68 companhias. O agronegócio foi o mais afetado, especialmente o cultivo de soja e a criação de bovinos.

O avanço das recuperações judiciais no setor agropecuário é particularmente preocupante e deve se estender por 2026. No último trimestre de 2025, havia 493 empresas do agro em recuperação judicial, um aumento de 67% em relação ao mesmo período do ano anterior. O cultivo de soja lidera essa crise, com 217 empresas nessa situação, mais que o dobro de um ano antes.

Produtores de soja sofrem com altos custos e juros elevados

Custos de produção elevados, preços mais baixos da commodity, juros altos e crédito restrito formam a combinação perversa que tem levado produtores rurais a medidas extremas. “A crise vai ser muito pior neste ano. Viemos de um nível de endividamento que tem se agravado com essa questão dos juros. Com taxas que vão de 15% a 20% nos bancos, o produtor ou empresa não consegue renegociar a dívida. O que está restando é a recuperação judicial”, afirma Maurício Buffon, presidente da Aprosoja Brasil.

O cenário se agrava pela coexistência de grandes empresas recorrendo à recuperação judicial, o que pode gerar um efeito cascata sobre pequenas e médias companhias. Flutuações no câmbio e a proximidade das eleições aumentam a incerteza, reforçando a expectativa de que 2026 registre novos recordes de empresas em dificuldade.

Roberta Gonzaga, consultora da RGF, que realizou o levantamento, ressalta que “as empresas tiveram o plano aprovado considerando uma premissa muitas vezes mais conservadora ou um recuo da taxa de juros, mas esses fatores têm que continuar sempre monitorados e ajustados. Não é porque aprovou a recuperação que a empresa começa sem dívidas. Ela tem que pagar todo o passivo que foi negociado”.

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