Relator da CPI do Crime Organizado expressa frustração com encerramento antecipado e cita envolvimento de figuras poderosas
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, manifestou profunda insatisfação com a decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de não estender os trabalhos da comissão, que se encerram em uma semana. Alcolumbre alegou não desejar a permanência de CPIs em período eleitoral.
Vieira destacou que uma força-tarefa está empenhada em analisar documentos, que chegam de forma lenta, para desvendar os fatos investigados. O foco principal recai sobre as recentes descobertas envolvendo o Banco Master e a gestora Reag, suspeitas de lavar dinheiro do PCC, conforme investigações da Polícia Federal.
“E se você vai avançando nas quebras [de sigilo] e nas relações, você encontra o Banco Master interagindo com, pelo menos, dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) através de familiares. Os próprios envolvidos confirmaram transações”, afirmou o senador, em entrevista à GloboNews. A declaração, conforme apurado pelo g1, se refere aos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Ligações familiares com o Banco Master sob escrutínio
As apurações da CPI apontam para conexões de familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, figura central nas investigações sobre o Banco Master. No caso de Dias Toffoli, a investigação foca em sua sociedade em um resort que negociou ações com um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro.
Já a esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci, teve seu escritório envolvido em um contrato de R$ 129 milhões com o conglomerado de Vorcaro. Uma apuração recente revelou que o escritório recebeu R$ 40 milhões em 2024 por serviços prestados ao banco, um dado que a CPI busca confirmar.
“Os documentos chegam a conta-gotas e, infelizmente, quando os alvos envolvidos são muito poderosos, os documentos chegam mais lentamente, os dados chegam, muitas vezes, incompletos. No caso do Barci de Moraes, na primeira remessa da Receita [Federal] os dados não vieram e tivemos que pedir complementação. Estamos fazendo a análise agora e confirmando os pagamentos que foram feitos efetivamente”, explicou o relator.
Depoimentos cruciais e críticas ao STF
Apesar do encerramento iminente, a CPI ainda planejava ouvir depoimentos importantes, como o do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Vieira acredita que esses depoimentos poderiam complementar algumas apurações, mas não suprir a totalidade dos objetivos da comissão.
O senador também criticou o Supremo Tribunal Federal (STF) por decisões que anularam requerimentos da CPI, como pedidos de quebra de sigilo e oitivas de testemunhas consideradas cruciais. Entre elas, estão os irmãos do ministro Dias Toffoli e o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que comandou a autarquia durante o período de crescimento do Banco Master e supostas fraudes.
Crime organizado: além da periferia
Alessandro Vieira ressaltou que o crime organizado transcende a imagem de “pobre armado na periferia”, sendo um sintoma de uma estrutura robusta de lavagem de dinheiro e infiltração no poder público. Ele enfatizou a necessidade de investigar a fundo a conexão entre facções criminosas e figuras de alto escalão.
“Crime organizado não é só pobre armado na periferia, ele é um sintoma do crime organizado. Ele só está lá porque tem uma estrutura forte e robusta de lavagem de dinheiro e de infiltração no poder público via corrupção por trás dele. Das cerca de 90 facções que temos no Brasil, todas elas têm base e comando estabelecido nos presídios. A gente vai tratar do Banco Master, da questão do estado do Rio de Janeiro, e também tratar dessa conexão que foi constatada desse grupo criminoso do Banco Master que é, na verdade, uma organização criminosa com figuras ligadas a ministros da Suprema Corte”, declarou.
Esperança em nova CPI e negativas do STF
O relator ainda mencionou que aguarda uma decisão do ministro Nunes Marques, do STF, sobre a instalação de uma nova CPI para apurar irregularidades específicas do Banco Master. Contudo, Vieira relatou que o magistrado tem se recusado a recebê-lo para discutir o pedido, demonstrando mais um obstáculo nas investigações.