Nova fase da Operação Compliance Zero foca em Jaques Wagner e Banco Master, gerando apreensão no governo e na base aliada do PT.
A Polícia Federal (PF) colocou o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, no centro das investigações sobre o Banco Master. A nova etapa da Operação Compliance Zero aponta para supostas vantagens financeiras e atuação parlamentar em benefício do banco.
As suspeitas detalhadas pela PF incluem um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, uso de aeronaves privadas, ingressos para shows nos EUA e repasses a empresas ligadas à família do senador. A operação gerou uma corrida no Palácio do Planalto para tentar conter os danos políticos.
Auxiliares do presidente Lula e membros da bancada petista discutem nos bastidores a possibilidade de Wagner se afastar da liderança para se dedicar à defesa. A prioridade é evitar que o escândalo contamine o governo e a campanha eleitoral. No entanto, Wagner afirmou que não deixará o cargo nem sua pré-candidatura ao Senado.
Benefícios Patrimoniais e Atuação Parlamentar em Destaque
Investigadores apontam Jaques Wagner como o “suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas”. As suspeitas envolvem não apenas benefícios diretos ao senador e seu entorno, mas também sua suposta atuação em temas de interesse do Banco Master no Congresso.
Entre os temas sob escrutínio estão mudanças nas regras do crédito consignado, discussões sobre os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e iniciativas relacionadas à tentativa de aquisição do banco pelo BRB. A PF detalha a aquisição de um apartamento de luxo em Salvador, onde Wagner teria encaminhado informações sobre o imóvel e o corretor a um empresário ligado ao banco.
O imóvel, avaliado em R$ 2,45 milhões, foi adquirido por uma empresa, levantando suspeitas de ocultação do beneficiário. Diálogos interceptados sugerem tentativas de conferir aparência de normalidade à transação, com uso de códigos como “a altura do vão é 2,45m” para se referir ao valor.
Jatinhos, Shows e Repasses Milionários para Familiares
A PF também aponta o uso de aeronaves ligadas ao empresário Augusto Lima e ao Banco Master por Wagner e familiares. Encontros em propriedades associadas a Lima e mensagens solicitando contatos de pilotos para deslocamentos particulares reforçam essa linha de investigação.
Além disso, foram identificados pagamentos de ingressos para shows internacionais nos Estados Unidos. O grupo ligado a Augusto Lima teria desembolsado R$ 63,3 mil para apresentações em Los Angeles, com o senador solicitando ampliação do número de convidados.
No eixo financeiro, a investigação identificou repasses de R$ 3,5 milhões para uma financeira associada a familiares de Jaques Wagner, provenientes de uma corporação vinculada ao Banco Master. Planilhas apreendidas indicam pagamentos superiores a R$ 2,3 milhões a Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado do senador e secretário de Meio Ambiente da Bahia.
Planalto Busca Conter Danos Políticos e PT Defende Wagner
A ofensiva da PF contra Jaques Wagner atingiu um aliado próximo de Lula, abrindo uma nova frente de desgaste para o governo. O Palácio do Planalto tenta preservar a articulação política e evitar novos focos de crise às vésperas da disputa eleitoral.
Nos bastidores, aliados do presidente defendem que Wagner deixe a liderança do governo no Senado. A avaliação é que um eventual afastamento poderia ter ocorrido antes para evitar que o Planalto fosse arrastado para a crise. Contudo, o PT nacional saiu em defesa do senador, afirmando que ele é “depositário de toda a nossa confiança” e que confiam em sua inocência.
Wagner descartou deixar a liderança ou desistir de sua pré-candidatura à reeleição. A estratégia do governo é dissociar a imagem de Lula dos desdobramentos da investigação, tratando o caso como responsabilidade individual. O ministro José Guimarães defendeu as apurações, afirmando que “a Polícia Federal tem autonomia para investigar, apurar tudo”.
Oposição Vê Confirmação de Suspeitas e Analistas Discutem Impacto
Integrantes da oposição veem a operação como confirmação de suspeitas levantadas desde a CPMI do INSS, apontando conexões entre o Banco Master e figuras do PT da Bahia, especialmente em torno da operação CredCesta.
Cientistas políticos avaliam que a entrada de Jaques Wagner no centro das investigações dificulta a estratégia do governo de tratar o caso como um problema externo ao núcleo governista. A proximidade de Wagner com Lula e seu papel central na articulação política tornam o caso mais complexo.
Alexandre Bandeira considera a investigação uma “fratura” relevante para o Planalto, pois atinge um dos principais aliados do presidente. Flávio Testa, por outro lado, acredita que os reflexos institucionais serão limitados, com maior repercussão na narrativa política do que na governabilidade.