O movimento de Donald Trump em direção à Coreia do Norte, com a redução de exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, abre um leque de oportunidades para a China expandir sua influência e agenda na Ásia. Especialistas apontam que essa aproximação, em um momento de fragilidade nas alianças tradicionais, pode inadvertidamente fortalecer os objetivos estratégicos de Pequim, incluindo a pressão sobre Taiwan.
A aparente modulação da política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump em relação à Coreia do Norte tem gerado ondas de choque em toda a Ásia. A decisão de diminuir a intensidade das manobras militares com a Coreia do Sul, um dos pilares de segurança da região por décadas, cria um vácuo que a China está posicionada para preencher.
Esse cenário, somado ao silêncio norte-coreano em relação aos contatos com os EUA, enquanto mantém suas ambições militares e laços com Pequim e Moscou, sinaliza uma reconfiguração geopolítica. A China, por sua vez, parece capitalizar essa dinâmica para reforçar sua própria liderança regional.
Conforme análise de Frederico Dias, professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, as recentes medidas de Trump podem, de fato, consolidar os laços entre China e Coreia do Norte. Isso ocorre em um contexto de tensões crescentes entre Seul e Washington, permitindo que Pequim fortaleça sua posição. As informações foram divulgadas com base em declarações à Gazeta do Povo.
China Fortalece Laços com Coreia do Norte em Meio à Mudança de Postura dos EUA
A aproximação diplomática de Trump com a Coreia do Norte, um dos regimes mais isolados do planeta, vem acompanhada de críticas americanas à lentidão da Coreia do Sul em cumprir acordos comerciais. A redução dos exercícios militares conjuntos também foi justificada, em parte, pela falta de apoio sul-coreano em questões como a reabertura do Estreito de Ormuz.
Um dos efeitos colaterais dessas decisões, segundo analistas, é o potencial fortalecimento das ambições militares e nucleares tanto da China quanto da Coreia do Norte. A tendência observada é que, em vez de frear tais ambições, esses países respondem com aceleração de investimentos bélicos e expansão de atividades militares regionais.
A importância da Coreia do Norte para a China é demonstrada pelo fato de a única viagem internacional do ditador chinês Xi Jinping em 2026 ter sido para o país vizinho. Essa visita, focada no aniversário de um tratado de defesa mútua, reforçou a aliança entre Pequim e Pyongyang, evidenciando o desejo chinês de manter o aliado afastado de negociações com o Ocidente e até mesmo com a Rússia.
Objetivos Estratégicos da China e o Impacto em Taiwan
Os objetivos de Xi Jinping ao estreitar laços com Kim Jong-un incluem a redução da influência russa sobre Pyongyang, a proteção contra um governo americano imprevisível, o contrapeso ao fortalecimento militar japonês e o reforço das opções militares em relação a Taiwan. Essa análise é apontada pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
O silêncio da China em relação à política nuclear norte-coreana, algo que antes Pequim condenava, indica uma disposição de Xi em aceitar a postura belicista da ditadura de Kim. Essa aproximação, contudo, não é isenta de custos para a China.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, destaca que a Coreia do Norte é um parceiro volátil, nuclearizado e economicamente fragilizado, exigindo subsídios e desgaste político contínuos da China. Ao instrumentalizar Pyongyang como uma ameaça em duas frentes, a China assume um fardo geopolítico pesado, desviando capital diplomático e atenção estratégica que poderiam ser direcionados a Taiwan.
Afastamento de Aliados e o Plano Chinês para Taiwan
A parceria militar entre Rússia e Coreia do Norte alertou a China sobre a possibilidade de ampliar suas opções militares em relação a Taiwan. O aparente distanciamento de Trump de aliados asiáticos pode dar novo fôlego aos planos de Pequim sobre o território reivindicado.
Em resposta a esse cenário, Taipei anunciou um aumento de 18% em seus gastos com defesa para o próximo ano, incluindo investimentos em drones e mísseis, elevando o total para mais de 1 trilhão de dólares taiwaneses (US$31,41 bilhões). Essa medida demonstra a preocupação de Taiwan com as crescentes tensões na região.
Outro fator que pode impulsionar a China a agir é o início das negociações entre Japão e Filipinas sobre a delimitação de fronteiras marítimas no Mar das Filipinas. Pequim tem intensificado suas operações na área, o que, segundo o CSIS, pode ser uma tentativa de alterar o status quo e estabelecer uma presença semipermanente a leste de Taiwan. As recentes incursões chinesas foram condenadas pelos EUA.