Zelensky descarta eleições durante a guerra, citando risco de divisão nacional
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, reiterou sua posição contra a realização de eleições enquanto o país estiver em guerra com a Rússia. Ele classificou a ideia como um “tsunami que dividiria o país”, em declarações neste domingo (23).
Zelensky foi enfático ao afirmar que realizar eleições em tempos de guerra seria um caminho para “destruir o país”. Segundo ele, o principal risco é fragmentar a sociedade e as forças armadas, justamente quando a unidade é crucial para enfrentar a invasão russa.
Essas declarações surgem após o ex-ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, antigo aliado de Zelensky, passar a defender publicamente a retomada do processo eleitoral. Fedorov deixou o governo em julho, após divergências com o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, sobre a condução da guerra e reformas militares.
Debate sobre democracia e o fim do mandato de Zelensky
Mykhailo Fedorov, que acusava o comando militar de obstruir suas iniciativas, deixou o cargo após Zelensky optar por manter Syrskyi e demiti-lo. Desde então, Fedorov tem criticado o governo que integrava, argumentando que “a democracia não pode ser mantida como refém pela Rússia”. Ele defende a busca por um “mecanismo legal, seguro e realista” para viabilizar eleições mesmo em um conflito prolongado.
A questão se torna ainda mais complexa, pois o mandato original de Zelensky terminou em maio de 2024. A lei marcial ucraniana, vigente durante a guerra, impede a realização de eleições. A legislação atual prevê a continuidade do presidente no cargo até que um novo chefe de Estado possa ser eleito e assumir.
No entanto, a realização de eleições sob as atuais circunstâncias apresenta desafios logísticos e de segurança significativos. É preciso garantir a proteção de eleitores e candidatos, viabilizar o voto de centenas de milhares de militares na linha de frente e incluir milhões de ucranianos no exterior ou em territórios ocupados pela Rússia.
Pesquisa e exemplos históricos sobre eleições em tempos de guerra
Uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev indica que 57% dos ucranianos preferem que as eleições ocorram somente após o fim dos combates. Embora seja uma maioria, o resultado aponta para a ausência de um consenso absoluto sobre o adiamento.
Historicamente, democracias enfrentaram dilemas semelhantes. Nos Estados Unidos, Abraham Lincoln manteve a eleição presidencial de 1864 durante a Guerra Civil, defendendo que “não haveria governo livre sem eleições”. O país também realizou eleições legislativas em 1918 e presidenciais em 1944, em meio a conflitos mundiais.
Por outro lado, o Reino Unido adiou eleições gerais em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, retornando às urnas somente em 1945. Israel também já adiou votações em momentos de conflito, como em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur. Esses exemplos demonstram que a decisão de realizar ou adiar eleições em tempos de guerra é complexa e depende do contexto específico de cada conflito, não havendo uma resposta única.