Safra Recorde de Café Não Garante Preço Baixo: Entenda Por Que o Cafezinho Continua Caro

Safra Recorde de Café Não Garante Preço Baixo: Entenda Por Que o Cafezinho Continua Caro

Resumo

Apesar da colheita histórica, o preço do café deve permanecer em patamares elevados no curto prazo, frustrando expectativas de alívio no bolso do consumidor.

A produção de café neste ano aponta para um recorde, com estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevendo a marca de 66,2 milhões de sacas beneficiadas. Esse volume supera o maior registro anterior, em 2020, e representa um aumento expressivo de 17,1% em relação ao ciclo de 2025.

Contudo, a boa notícia da safra recorde não se traduz automaticamente em preços mais acessíveis. Especialistas apontam que estoques globais baixos e a necessidade de recomposição após períodos de oferta restrita são os principais vilões para a manutenção dos valores em alta.

Essa situação é confirmada por dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que indicam uma queda acentuada nos estoques mundiais de café desde 2021. Conforme as informações divulgadas, o volume de grãos armazenados globalmente caiu de 31,9 milhões para 20,1 milhões de sacas de 60 kg, uma redução de 36,9%.

Estoques globais em baixa impactam o preço do café

O economista Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), explica que, embora os preços devam apresentar alguma acomodação, eles permanecerão em patamares elevados. Essa perspectiva é reforçada pela análise dos dados de estoques globais.

A cafeicultura nacional enfrentou uma crise significativa entre 2021 e 2022, marcada pela menor safra histórica devido à estiagem. Em 2024, a falta de chuvas durante o desenvolvimento das lavouras novamente elevou os custos de produção para os cafeicultores, que precisaram investir mais em manutenção e no combate a pragas, favorecidas pelas altas temperaturas.

Adicionalmente, importantes fornecedores internacionais, como Vietnã, Colômbia e Indonésia, também sofreram com quebras de safra devido a adversidades climáticas. Essa conjuntura global resultou em uma redução significativa na disponibilidade do grão no mercado mundial, impactando diretamente a oferta e, consequentemente, os preços.

Ciclos longos e demanda crescente: a receita para o café caro

O café é uma commodity sensível às variações de temperatura e depende de ciclos agrícolas longos. Novos plantios levam de três a cinco anos para atingir plena capacidade produtiva, o que significa que os impactos do clima na oferta tendem a se prolongar por alguns anos. Diferentemente de outras commodities, o aumento da produção de café não ocorre rapidamente.

Por outro lado, a demanda global por café continua em expansão. O crescimento é impulsionado especialmente pelo mercado asiático e pela crescente popularização de cafés especiais, o que adiciona mais pressão sobre os preços.

O preço do café no mercado brasileiro, embora influenciado por fatores como câmbio, tributos e custos logísticos, segue alinhado à cotação internacional, segundo o pesquisador da FGV Agro. Uma única safra recorde não é suficiente para normalizar a situação; seriam necessárias pelo menos duas safras boas consecutivas para restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda mundial e trazer os preços para níveis anteriores.

A alta expressiva do café no orçamento familiar

O impacto no bolso do consumidor é inegável. Segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do café moído acumulou uma alta expressiva de 99,48% entre janeiro de 2024 e junho de 2025, com uma ligeira queda nos meses seguintes.

Para o café solúvel, a alta acumulada em dois anos foi de 36,56%, enquanto a inflação geral no mesmo período foi de 9,66%. O café, sendo a segunda bebida mais consumida no Brasil, atrás apenas da água, já vinha pesando no orçamento familiar há anos.

De janeiro de 2020 até janeiro deste ano, o preço do produto no Brasil acumulou uma alta de 219,6%, mais do que triplicando seu valor em pouco mais de seis anos. Comparativamente, a variação acumulada do IPCA no mesmo período foi de 39,7%, indicando que o preço do café subiu 179,9% acima da inflação geral.

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