A Hungria elege novo rumo: Péter Magyar vence Viktor Orbán e promete mudança após anos de polarização.
As eleições parlamentares de 2026 na Hungria marcaram um ponto de virada significativo, com a derrota do primeiro-ministro Viktor Orbán, que definiu seu regime como uma “democracia iliberal”. O resultado foi celebrado em Bruxelas e lamentado por populistas de direita europeus, sinalizando uma possível nova era na política húngara, influenciada por sua história complexa.
Diferente de países da Europa Ocidental, a Hungria possui um passado marcado por dominações estrangeiras e pela forte defesa de sua independência. Essa história moldou a percepção sobre a integração europeia, vista por muitos como uma perda de soberania, especialmente após décadas sob regime comunista e as perdas territoriais após a Primeira Guerra Mundial, com o Tratado de Trianon.
No início do século XXI, Viktor Orbán capitalizou o nacionalismo húngaro, argumentando que a globalização e a União Europeia ameaçavam os interesses nacionais e a cultura local, comparando-as à imposição comunista. Ele se apresentou como defensor da civilização europeia e do cristianismo, rejeitando o multiculturalismo e a imigração. Essa narrativa, contudo, não o levou a questionar a permanência na UE, apesar das críticas de Bruxelas sobre o Estado de direito e a concentração de poder. Conforme informações divulgadas, a tensão resultou no congelamento de fundos europeus no valor de aproximadamente 18 bilhões de euros.
O erro fatal do nacionalismo exacerbado
A análise do resultado eleitoral sugere que Viktor Orbán se tornou vítima de seu próprio nacionalismo. A concentração de poder e a constante luta contra inimigos internos e externos, características de regimes nacionalistas, podem levar à negligência das preocupações cotidianas dos cidadãos, como questões econômicas e de saúde. A corrupção, frequentemente associada a governos que concentram poder, intensifica a insatisfação popular.
Para contornar a situação, o governo de Orbán realizou manobras para dificultar a vitória da oposição, como a redução do Parlamento de 386 para 199 cadeiras e o redesenho de distritos eleitorais. Apesar dessas ações, a derrota se concretizou com a ascensão de Péter Magyar, um advogado de 45 anos e ex-líder do Fidesz, que fundou o partido Tiszta em 2024.
A ascensão de Péter Magyar e o “triunfo da geladeira sobre a televisão”
A vitória de Magyar, que obteve maioria absoluta de dois terços, não se deu por um grande terremoto ideológico, mas sim pela consciência de que a vitória eleitoral consecutiva de Orbán levou à estagnação do regime, apesar da propaganda positiva na mídia. Magyar utilizou símbolos da cultura húngara, como o poema “Lúdas Matyi”, para retratar Orbán como um símbolo de injustiça e poder ilimitado.
A situação econômica foi decisiva para a derrota de Orbán, um fenômeno descrito como o “triunfo da geladeira sobre a televisão”. A inflação crescente, especialmente nos preços dos alimentos, reduziu o poder de compra dos salários e poupanças, gerando estagnação econômica. Nesse cenário, a corrupção e o uso questionável de fundos públicos e europeus tornaram-se mais evidentes para os cidadãos.
Magyar focou sua campanha nessas questões, enquanto o governo de Orbán tentou desumanizar seu oponente em vez de debater argumentos. A campanha eleitoral também foi marcada por um grito generalizado de “Fora, russos!”, remetendo à história húngara de luta contra a dominação russa.
Novas relações com Bruxelas e o futuro da Hungria
Péter Magyar alcançou o objetivo de destituir Orbán, uma vitória que exigiu uma maioria absoluta, mesmo à custa do voto da esquerda, que perdeu sua representação parlamentar. O novo primeiro-ministro precisa atender às demandas do movimento social que o alçou ao poder, com foco na melhoria das relações com Bruxelas para resolver os problemas econômicos, sem abandonar a cautela em relação à imigração.
No que diz respeito à Ucrânia, Magyar pode facilitar o desbloqueio do empréstimo de US$ 90 bilhões da UE, mas é improvável que apoie a rápida integração do país vizinho à Europa, devido à atenção que será dada à situação da minoria húngara na Ucrânia.
A aproximação de Orbán com Putin, justificada pelo pragmatismo no fornecimento de energia, foi mal interpretada, contrastando com o jovem antissoviético de 1989. A tentativa de retratar a Ucrânia e seu presidente Zelensky como ameaças existencialistas à segurança húngara, e a ideia de que a Hungria seria um cavalo de Troia para a Ucrânia, não surtiram efeito.
O apoio de figuras como o vice-presidente americano JD Vance, que acusou Bruxelas de arruinar a economia húngara, também se mostrou equivocado. A rejeição pública às ações de Donald Trump na Europa também afetou a percepção dos EUA como garantidores da segurança europeia.
Um dos maiores erros de Orbán foi esquecer que a Hungria faz parte da Europa, apesar das tentativas de apresentar o país como uma alternativa a Bruxelas. A situação econômica e a corrupção pesaram mais nas decisões dos eleitores do que slogans ideológicos, juntamente com a imagem de um governo alinhado a interesses que não se coadunam com os de um país europeu.