A gestão do irmão de Gilmar Mendes na prefeitura de Diamantino, em Mato Grosso
Francisco Ferreira Mendes Junior, o Chico Mendes, reassumiu a prefeitura de Diamantino, em Mato Grosso, em 2025, marcando seu retorno ao cargo após 16 anos. A sua volta ao poder se destaca não apenas pelo longo intervalo, mas também pela inusitada aliança política: foi eleito com apoio do PL e do ex-presidente Jair Bolsonaro, figura frequentemente crítica ao seu irmão, o ministro do STF Gilmar Mendes.
Chico Mendes, que também é empresário e produtor rural, pertence a uma tradicional família política local. Sua trajetória e o contexto político de Diamantino, uma cidade com forte vocação para o agronegócio, moldam sua atuação municipal. A relação com o setor produtivo e a busca por infraestrutura são temas centrais na política da região.
A eleição de Chico Mendes em 2024 chamou a atenção também pelo seu patrimônio declarado. O prefeito informou possuir R$ 56,4 milhões em bens, incluindo fazendas, imóveis, veículos e empresas ligadas ao agronegócio e manutenção de máquinas. Essas informações foram divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme apurado pela reportagem. A forte ligação familiar com a política local e a influência do sobrenome Mendes em Diamantino são pontos cruciais para entender a dinâmica política do município.
Um Legado Familiar na Política de Diamantino
Nascido em Diamantino em 1967, Chico Mendes tem raízes profundas na política local. Ele é filho de Francisco Ferreira Mendes, que administrou a cidade por duas gestões. O próprio Chico Mendes já havia sido prefeito entre 2001 e 2008. Somando os mandatos do pai e os seus, a família Mendes esteve à frente da prefeitura por cerca de duas décadas, e com o atual mandato, esse período pode chegar a 23 anos.
A influência da família não se limita aos mandatos diretos. Em 2008, após o segundo mandato de Chico Mendes, o então candidato apoiado por ele, Juviano Lincoln, assumiu a prefeitura após a cassação do eleito. Juviano Lincoln foi reeleito em 2012, garantindo a continuidade da influência do grupo político no município.
Essa presença prolongada do sobrenome Mendes na política de Diamantino é um fator relevante, visto tanto como experiência e capacidade de articulação por aliados, quanto como continuidade de um grupo familiar influente por críticos. A oposição mais recente, representada por Kan, do Novo, buscou um discurso de renovação contra um candidato associado a essa tradição familiar.
A Incomum Aliança com o Bolsonarismo
A candidatura de Chico Mendes em 2024 foi marcada por um apoio significativo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em abril do mesmo ano, Bolsonaro esteve em Diamantino para um evento de pré-campanha ao lado de Chico Mendes. Essa aproximação gerou atenção, dado que Gilmar Mendes é frequentemente alvo de críticas por parte de setores bolsonaristas.
O apoio se materializou também em termos financeiros. O PL, partido de Bolsonaro, destinou R$ 300 mil para a campanha de Chico Mendes. Além disso, o vice-prefeito eleito, Antonio do Carol, é filiado ao PL, fortalecendo a composição eleitoral.
Essa união em uma disputa municipal reuniu elementos de interesse nacional, como o peso político da família Mendes, a aproximação com o bolsonarismo e o apoio financeiro de um partido com tensões federais com ministros do STF. Apesar disso, a atuação pública de Chico Mendes tem se mostrado mais voltada para a gestão municipal.
Foco na Gestão Municipal e Diálogo Institucional
Apesar do apoio da direita em sua eleição, Chico Mendes não tem apresentado um discurso ideológico nacionalizado em seus canais oficiais e materiais institucionais. Sua comunicação foca em temas de gestão municipal, como agronegócio, saúde, educação e infraestrutura, refletindo as prioridades de Diamantino.
Sua atuação demonstra um perfil pragmático, buscando interlocução com diferentes esferas de governo. Chico Mendes participou do Encontro de Novos Prefeitos e Prefeitas em Brasília, promovido pelo governo federal. Essa participação institucional, embora não signifique apoio político do PT, revela uma estratégia de busca por diálogo com a União.
A gestão municipal em Diamantino, uma cidade de pequeno porte populacional, parece se organizar mais em torno de questões administrativas locais do que de debates ideológicos nacionais. A capacidade de articulação com diferentes grupos de poder, combinada com a influência familiar, define o cenário político local.
Trajetória com Questionamentos Judiciais
A carreira política de Chico Mendes também inclui questionamentos administrativos e judiciais, em sua maioria relacionados a gestões anteriores. Em 2009, o Tribunal de Contas de Mato Grosso aplicou uma multa ao então ex-prefeito após a análise das contas de 2008, que foram aprovadas com ressalvas.
O Ministério Público de Mato Grosso também esteve envolvido em questões como a anulação de um concurso público para agente comunitário de saúde em 2008. Além disso, em 2015, uma liminar determinou a indisponibilidade de bens de Chico Mendes em uma ação que envolvia o uso de recursos públicos na contratação de um show artístico para a Expodiamantino de 2007.
Na gestão atual, veículos locais noticiaram questionamentos do Ministério Público contra uma lei municipal sancionada em 2025, que aumentou verbas indenizatórias para vereadores, secretários municipais e o próprio prefeito. Estes episódios pontuam a trajetória administrativa de Chico Mendes em Diamantino.