A Fazenda Gaúcha que Forma Cavalos Militares de Elite e Exporta Genética para a América Latina
Em São Borja, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, uma propriedade rural de proporções monumentais abriga um projeto singular: a Coudelaria e Campo de Instrução de Rincão. Esta vasta área, com 15.362 hectares, é o berço de aproximadamente mil equinos destinados a funções militares, tanto para o Exército Brasileiro quanto para forças armadas de países vizinhos.
A coudelaria, termo que remete à criação de cavalos de uso militar ou estatal, difere dos haras privados. Seus animais são peças fundamentais no arsenal do exército, atuando em cerimoniais, patrulhamento em terrenos de difícil acesso e até mesmo em combate. A produção segue um planejamento meticuloso que se estende por cinco anos, garantindo a entrega de cerca de 150 cavalos prontos para o uso a cada ano.
Essa operação estratégica, que custa em média R$ 7 mil por animal, não visa a venda, mas sim a doação para órgãos requisitantes. Com uma genética de campeões e um foco em características como pelagem uniforme, dorso forte, pescoço alongado e boa capacidade cardiorrespiratória, os cavalos formados em Rincão são um patrimônio do governo e um orgulho nacional. Conforme informação divulgada pela coudelaria, em 2025 foram entregues 170 cavalos ao Exército, o que representa um animal domado e pronto para uso a cada dois dias.
O Legado Histórico da Coudelaria de Rincão
A história da criação de cavalos militares no Brasil remonta ao século XVII, com as primeiras iniciativas em Pernambuco. No Rio Grande do Sul, a Estância Real de Bojuru, fundada em 1737, marcou o início das propriedades militares na região. A área que hoje compreende a coudelaria integrou, no século XVIII, a Estância de São Gabriel, pertencente à Companhia de Jesus.
Após um período de arrendamento a fazendeiros, as terras retornaram ao Ministério da Guerra em 1891. Oficialmente, o Rincão de São Gabriel tornou-se a Coudelaria de Rincão em 1922. Ao longo do século XX, o Exército manteve diversas propriedades de criação, chegando a possuir nove coudelarias em 1950. No entanto, a mecanização das Forças Armadas reduziu a necessidade de equinos, que diminuíram de 22.810 em 1939 para 2.181 atualmente.
Diversidade de Raças e Treinamento Especializado
A Coudelaria de Rincão se destaca pela diversidade de raças e pelo treinamento adaptado às necessidades militares. Entre as raças criadas, o Cavalo Brasileiro de Hipismo (BH) é um dos grandes focos, com mais de 800 exemplares, liderando a criação nacional. Estes animais demonstram forte aptidão para a equitação e são amplamente utilizados em atividades desportivas e cerimoniais.
O cavalo crioulo, conhecido por sua rusticidade, atende às demandas de policiamento ostensivo, sendo ideal para patrulhamento em terrenos desafiadores. Já o Bretão tem um papel estratégico na reprodução, com éguas servindo como receptoras de embriões, uma técnica pioneira no Brasil que permite o desenvolvimento genético de diversas linhagens. Essa prática posiciona Rincão como referência na América Latina, com envio de animais para Argentina e Paraguai.
Cavalos Militares: Do Cerimonial ao Patrulhamento em Campo Aberto
Os cavalos formados na coudelaria gaúcha desempenham funções cruciais em diversas unidades militares. Em Brasília, eles integram os regimentos de guarda, como os Dragões da Independência, participando de atividades cerimoniais de grande relevância. No Rio de Janeiro e em Porto Alegre, também são utilizados em unidades militares.
Além das funções cerimoniais, uma parcela significativa dos animais é destinada ao patrulhamento de campos de instrução e áreas militares, garantindo a segurança e a vigilância em locais de difícil acesso para veículos. A Força Aérea Brasileira e diversas Polícias Militares estaduais também contam com os equinos para policiamento ostensivo e para unidades de choque, demonstrando a versatilidade e a importância desses animais.
Intercâmbio Genético e Excelência Internacional
A Coudelaria de Rincão não se limita ao atendimento das forças brasileiras. A propriedade mantém um ativo intercâmbio com as Forças Armadas de países da América Latina, promovendo a troca de animais e material genético. Essa colaboração fortalece os laços regionais e eleva o padrão de qualidade dos equinos militares na América do Sul.
O coronel Leandro Sicorra Wilemberg, diretor da coudelaria, destaca os bons resultados em campeonatos internacionais, evidenciando a capacidade de alinhar a atividade desportiva com o uso militar. O trabalho técnico busca extrair o máximo potencial de cada animal, independentemente da raça, garantindo que desempenhem com excelência tanto no esporte quanto nas funções militares. Alguns exemplares chegam a permanecer na ativa por até 30 anos, um testemunho da qualidade e durabilidade do treinamento e da criação.