Defesa do Brasil autoriza entrada de 115 militares estrangeiros armados para treinamento conjunto, apesar de crise diplomática com EUA

Defesa do Brasil autoriza entrada de 115 militares estrangeiros armados para treinamento conjunto, apesar de crise diplomática com EUA

Resumo

Defesa Nacional Reinicia Treinamento com Tropa Estrangeira em Meio a Tensão Diplomática com os EUA

O Ministério da Defesa do Brasil autorizou a entrada de 115 militares estrangeiros armados em território nacional para a realização de um importante treinamento militar. A operação ocorrerá entre os dias 3 e 25 de setembro no município de Formosa, localizado em Goiás, a aproximadamente 80 km da capital federal, Brasília.

O contingente estrangeiro será composto por 55 militares dos Estados Unidos, 40 da França e 20 do Paraguai. A decisão, publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira (26), marca o retorno de exercícios que historicamente fortalecem os laços de cooperação e intercâmbio de conhecimentos entre as forças armadas de diferentes nações.

A iniciativa, no entanto, acontece em um cenário geopolítico delicado, com o Brasil retomando atividades de treinamento conjunto após um período de crise diplomática com os Estados Unidos. Essa retomada é vista como um passo importante para a normalização das relações militares bilaterais, conforme divulgado pelas fontes.

Retomada de Exercícios em Formosa Após Crise Diplomática

A Marinha do Brasil considera 1988 o ano de início dos exercícios e adestramentos em Formosa. A operação de treinamento militar, embora tradicional, é atravessada por questões internas e geopolíticas, retornando após uma crise diplomática que, em 2025, chegou a provocar sanções e afetar a cooperação militar. Embora as sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes tenham sido retiradas no final daquele ano, as relações comerciais sofreram novas tensões em 2026 com a imposição de tarifas americanas sobre produtos brasileiros.

Histórico de Cooperação e Tensões Bilaterais

O exercício de 2025 foi cancelado em meio à vigência da Lei Magnitsky e a imposição de tarifas. Em agosto de 2025, a cooperação militar foi significativamente afetada pela maior crise bilateral em décadas. O cancelamento do exercício pela Marinha ocorreu em meio a tarifas de 50% e à aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, além de outras autoridades brasileiras. Oficialmente, a justificativa apresentada foi de restrições orçamentárias devido a outro treinamento, a Operação Atlas. A decisão seguiu uma reunião da cúpula das Forças Armadas.

No final de 2025, as restrições contra Moraes foram revogadas após um encontro entre o presidente Lula e o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em setembro do mesmo ano, durante a 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Trump já havia sinalizado uma aproximação com Lula, afirmando que houve uma “química excelente” entre os dois líderes. Essa articulação política foi fundamental para a posterior normalização das relações.

Participação Histórica e Inovadora de Tropas Estrangeiras

Um marco histórico ocorreu no ano anterior, quando fuzileiros da China foram autorizados a atuar em campo ao lado de militares americanos. Em 2023, a participação chinesa foi na qualidade de observadores. O chefe das tropas dos Estados Unidos na operação, tenente-coronel Brandon Ward, destacou à Folha de S.Paulo que o objetivo seria fortalecer os laços com o Brasil, mesmo com a presença da China. “Entendemos que outros países têm objetivos diferentes. O nosso é estreitar os laços com a Marinha porque nós queremos ter uma relação forte da América do Norte com a América do Sul, para que possamos trabalhar juntos em qualquer crise que vier”, afirmou.

O comandante da Marinha do Brasil, Marcos Sampaio Olsen, justificou a junção de forças pelo “intercâmbio de conhecimentos” e classificou o feito como um “instrumento de incremento de confiança”. Apesar da presença de tropas estrangeiras, o maior contingente é nacional. Em 2022, por exemplo, cerca de 3,5 mil militares das três forças participaram do treinamento. A decisão atual não menciona a participação de tropas da China, como ocorreu na edição anterior.

Tensões Internas e o Caso Bolsonaro em 2021

Em 2021, o treinamento, que até então era restrito à Marinha, passou a contar com a participação do Exército e da Força Aérea Brasileira, integrando o calendário operativo do Ministério da Defesa. Naquele ano, a tensão entre os poderes se elevou com um desfile de blindados no mesmo dia da votação da PEC do voto impresso. A Marinha esclareceu que o comboio foi enviado para entregar ao então presidente Jair Bolsonaro um convite para acompanhar a Operação Formosa 2021, devido à presença inédita das três forças. Na época, a Marinha destacou que a entrega simbólica foi planejada antes da agenda de votação da PEC 135/2019 na Câmara dos Deputados e não possuía relação com o ato.

O comandante da Marinha na ocasião era o Almirante Almir Garnier, que posteriormente foi condenado a 24 anos de prisão pelo STF por suposta tentativa de golpe, na mesma ação em que Bolsonaro recebeu a maior punição do caso, 27 anos. O desfile militar surgiu no voto de Alexandre de Moraes para reforçar seu posicionamento pela condenação. Em 2020, durante o auge da pandemia de Covid-19, o contingente foi reduzido para 500 militares e as operações ocorreram em menor escala. Um ano antes, em 2019, o primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro, a Tenente Liana se tornou a primeira mulher a comandar um pelotão de infantaria, com um contingente de aproximadamente 1.900 militares.

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