Flávio Bolsonaro propõe pragmatismo comercial com foco na abertura de mercados e alinhamento com democracias, enquanto Lula prioriza o BRICS e a defesa contra potências ocidentais.
As visões sobre a política externa brasileira para os próximos anos se mostram diametralmente opostas entre o candidato Flávio Bolsonaro (PL) e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto Flávio defende uma abordagem pragmática, focada na abertura de mercados e na cooperação com potências democráticas, mas sem fechar portas para a China, Lula reafirma a importância do Sul Global, do fortalecimento dos BRICS e de uma postura de defesa contra o que considera inimigos externos.
Essa divergência se reflete nas propostas de cada um, que buscam moldar a inserção do Brasil no complexo tabuleiro geopolítico e econômico mundial. A disputa ideológica e a busca por alinhamentos estratégicos são pontos centrais nessa dicotomia.
Flávio Bolsonaro critica o que chama de “alinhamento ideológico” da atual gestão, argumentando que este protege regimes autoritários. Ele propõe uma política externa guiada por critérios técnicos e profissionais, visando ganhos mútuos no comércio e o fortalecimento de relações com parceiros históricos como Estados Unidos, Israel e Argentina. Já o projeto de Lula posiciona o Brasil como líder do mundo em desenvolvimento, priorizando a integração sul-americana e a reforma de organismos multilaterais para dar mais voz aos países pobres, em linha com a agenda de não intervencionismo defendida pela China.
Flávio Bolsonaro mira a OCDE e o pragmatismo comercial
No plano de Flávio Bolsonaro, a adesão plena à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é vista como um passo “mais urgente”. Ele argumenta que integrar o “clube dos países ricos” impulsionaria a convergência de normas brasileiras aos padrões internacionais, combatendo a corrupção e aprimorando a governança de estatais. A OCDE, com seus mecanismos jurídicos vinculantes, facilitaria fluxos financeiros e de serviços transfronteiriços, dificultando agendas protecionistas e a blindagem de empresas estatais.
A proposta de Flávio visa atrair investimentos para áreas estratégicas como minerais e tecnologia, inserindo o Brasil nas cadeias globais de produção e aumentando a competitividade das empresas nacionais. Ele critica a situação do Porto de Santos como exportador de ilícitos e sugere o uso de adidos agrícolas para reverter sanções contra produtos brasileiros nos EUA e Europa, defendendo uma abertura comercial sem “ranços ideológicos”.
Lula aposta nos BRICS e na liderança do Sul Global
Em contrapartida, o projeto de Lula enfatiza o aprofundamento das relações com a China e os BRICS, além da expansão da cooperação com a África e a ASEAN. Essa estratégia reflete o esforço do atual presidente em consolidar a liderança brasileira entre os países em desenvolvimento do hemisfério sul. O plano petista também destaca a criação de mecanismos financeiros alternativos, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), sob a égide dos BRICS, com o objetivo de construir uma ordem mundial que fuja da “lógica da submissão” às potências ocidentais.
Lula busca posicionar o Brasil como uma “potência ambiental”, visando protagonismo diplomático em agendas globais como o combate à fome e a questão climática. A política externa do governo Lula reafirma o compromisso com tratados de direitos humanos, igualdade de gênero e raça, e celebra a abertura de 656 novos mercados e a conclusão de acordos do Mercosul com a União Europeia e Singapura como provas de uma política ativa.
Divergência no conceito de soberania e alinhamentos internacionais
A questão da soberania também marca a divisão entre os candidatos. Flávio associa a autoridade internacional ao controle territorial e ao combate rigoroso ao crime nas fronteiras, vendo ONGs que recebem fundos internacionais como um risco potencial. Já Lula vincula a soberania à autonomia de decisão e à liderança em agendas globais, como combate à fome e mudança climática, buscando transformar o Brasil em uma “potência ambiental”.
O plano petista, conforme aponta o analista Fidelis Fantin, pode ser interpretado como uma preparação para ações políticas contra países com os quais não se alinha, especialmente os Estados Unidos. Fantin elogia o programa de Flávio por demonstrar “mais pragmatismo” e ser “mais construtivo”, buscando “cooperação e harmonia econômica com os parceiros naturais” sem conflitos.
Outras visões: Caiado, Renan e Zema
Ronaldo Caiado propõe uma diplomacia de Estado focada no interesse nacional, sem alinhamentos automáticos, priorizando mercados para o agronegócio e atração de investimentos, utilizando os ativos brasileiros como moedas de troca. Renan Santos, com seu plano “Brasil Poderoso”, visa tornar o país árbitro do Sul Global e sub-hegemonia regional, com medidas como a desdolarização da América do Sul e autonomia no ciclo de combustível nuclear. Zema defende um “choque de pragmatismo”, sugerindo a saída diplomática dos BRICS e a adesão à OCDE, além da flexibilização do Mercosul para acordos bilaterais.
A escolha do eleitor definirá se o Brasil seguirá o caminho da integração às melhores práticas de mercado e segurança globais ou se manterá a estratégia de protagonismo em blocos de nações em desenvolvimento, contestando a ordem internacional vigente.