Futebol Feminino da Coreia do Norte: Kim Jong-un Usa Vitórias como “Treinamento de Guerra” e Propaganda
O regime da Coreia do Norte encontrou no futebol feminino uma de suas principais vitrines de propaganda internacional. Tanto no âmbito de clubes quanto na seleção nacional, as norte-coreanas têm alcançado diversos êxitos em competições recentes pelo mundo, o que tem sido usado por Pyongyang para projetar unidade no exterior e reforçar a propaganda interna do regime.
Um vídeo recente nas redes sociais mostrou jogadoras do Naegohyang Women’s FC e da seleção sub-17 norte-coreana emocionadas ao serem cumprimentadas individualmente pelo ditador Kim Jong-un. Essa recepção é reservada a figuras de alto escalão, evidenciando a importância dada pelo líder às conquistas esportivas.
O fato ocorreu após uma partida amistosa na capital norte-coreana. O Naegohyang Women’s FC é campeão da Liga dos Campeões Feminina da Ásia, e a seleção sub-17 conquistou a Copa da Ásia da categoria, goleando o Japão por 5 a 1. Kim Jong-un saudou as atletas, que expressaram gratidão e prometeram mais sucessos esportivos, segundo a agência estatal KCNA.
Sucessos Históricos e Propaganda Política
O Naegohyang Women’s FC fez história ao se tornar o primeiro clube norte-coreano a vencer a Liga dos Campeões Feminina da Ásia, derrotando o japonês Tokyo Verdy Beleza por 1 a 0. A capitã Kim Kyong Yong, eleita a melhor jogadora, marcou o gol decisivo.
A conquista teve um peso adicional, pois o Naegohyang foi a primeira equipe esportiva norte-coreana a visitar a Coreia do Sul em oito anos, num período de alta tensão entre os países. Pyongyang agora classifica o vizinho ao sul como seu “Estado mais hostil”. Na semifinal, o time eliminou um clube sul-coreano, o Suwon FC Women, por 2 a 1.
A seleção sub-17 da Coreia do Norte também ostenta feitos notáveis, como o bicampeonato consecutivo da Copa do Mundo da categoria em 2023, goleando a Holanda por 3 a 0 na final. Este foi o quarto título mundial sub-17 do país, um recorde. As norte-coreanas são também as atuais campeãs mundiais sub-20 e venceram a Copa da Ásia sub-17 neste ano.
Investimento Estatal e Treinamento Intenso
O sucesso do futebol feminino norte-coreano é resultado de um investimento estatal iniciado no final da década de 1980, quando a FIFA anunciou a criação da Copa do Mundo Feminina. O regime de Kim Jong-il viu na modalidade uma oportunidade para aumentar a projeção internacional do país.
O futebol feminino tornou-se prioridade de Estado, com inserção nos currículos escolares e criação de equipes ligadas às Forças Armadas. Atletas recebem salários e treinam em regime integral, visando altos rendimentos.
Em 2013, Kim Jong-un inaugurou a Escola Internacional de Futebol de Pyongyang, que seleciona crianças a partir dos sete anos para formação esportiva e acadêmica. As primeiras gerações formadas na instituição compõem a base dos títulos mundiais sub-17 e sub-20.
“Guerra” nos Treinamentos e Disciplina Ideológica
Treinadores que passaram pela Coreia do Norte descrevem uma rotina de exigência extrema. Relatos mencionam jovens atletas cruzando campos carregando colegas nas costas, numa prática descrita como “insana”. O futebol norte-coreano é baseado em repetição e disciplina desde a infância.
Ex-jogadores descrevem que o treinamento é tratado como uma guerra, onde cada chute ao gol é uma “bala do inimigo” e falhas defensivas são comparadas a invasões. A mensagem constante é de uma “guerra de velocidade, habilidade e determinação”.
Segundo analistas, as conquistas são exploradas pelo regime para apresentar uma narrativa de suposta superioridade do socialismo sobre o capitalismo. O sucesso das atletas é associado à disciplina ideológica e à lealdade ao Estado, reforçando a imagem de Kim Jong-un.
Incentivos e a “Oportunidade” de Conhecer o Líder
Atletas de sucesso na Coreia do Norte podem receber apartamentos em Pyongyang, porções extras de alimentos e até filiação ao Partido dos Trabalhadores, considerados privilégios significativos.
A principal recompensa, no entanto, parece ser simbólica: a oportunidade de conhecer Kim Jong-un. Esse encontro é visto como um grande prestígio e um reconhecimento máximo pelo regime.
Escândalo, Punição e Retorno Triunfal
O futebol feminino norte-coreano enfrentou um revés em 2011, quando cinco jogadoras foram flagradas em exame antidoping na Copa do Mundo Feminina. A federação alegou uso de substância natural como tratamento após serem atingidas por um raio, mas a justificativa foi rejeitada, resultando em banimento de quatro anos.
A punição afastou a Coreia do Norte de importantes competições por mais de uma década. A seleção principal ficou fora da Copa do Mundo de 2015 e não se classificou para o Mundial de 2019, além de ter se ausentado de torneios em 2022 e 2023.
O retorno gradual começou com a participação na Copa da Ásia Feminina deste ano, chegando às quartas de final. Agora, a seleção está classificada para a Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil, marcando o retorno ao torneio após 16 anos e uma nova oportunidade para Pyongyang usar o desempenho esportivo como propaganda internacional.
Futebol Como Ferramenta Ideológica
O uso político do futebol foi evidente no evento em que Kim Jong-un recebeu as jogadoras campeãs. O ditador aproveitou a ocasião para reforçar a formação ideológica dos jovens do Partido dos Trabalhadores e alertar contra o “deslizamento ideológico”.
As atletas foram apresentadas como exemplo de lealdade ao regime. As conquistas esportivas são associadas à liderança de Kim Jong-un, fortalecendo a fidelidade ao Partido, segundo analistas.