Investigação da Polícia Federal revela empréstimo milionário com garantia desproporcional, levantando suspeitas sobre a atuação do presidente da Câmara dos Deputados.
A Polícia Federal descobriu, através de mensagens recuperadas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, indícios de que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, teria atuado na intermediação de um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões. O crédito foi concedido pelo Banco Master a uma empresa controlada por sua cunhada, Bianca Medeiros.
O ponto central da investigação reside na garantia apresentada para a operação: a própria empresa, avaliada em apenas R$ 100 mil. As conversas, obtidas no âmbito da Operação Compliance Zero e confirmadas por reportagens, sugerem que Lira teria dialogado diretamente com Vorcaro para viabilizar o financiamento.
A operação financeira chamou a atenção por sua rapidez e pela disparidade entre o valor emprestado e o patrimônio da empresa. A situação levanta questionamentos sobre a conformidade do processo e a possível influência política na liberação do crédito. As informações foram divulgadas inicialmente pelo jornal Gazeta do Povo.
Empresa recém-adquirida e garantia irrisória
De acordo com as apurações, em 8 de março de 2024, a cunhada de Arthur Lira adquiriu a totalidade das cotas da ETC Participações. Apenas sete dias depois, em 15 de março, a mesma empresa firmou um contrato de empréstimo com o Banco Master no valor expressivo de R$ 22 milhões. Como garantia, foram oferecidas as cotas recém-adquiridas da ETC, cujo capital social registrado na época era de R$ 100 mil.
Isso significa que o empréstimo era equivalente a 220 vezes o patrimônio declarado da companhia no momento da contratação. A sede da empresa, inicialmente registrada em São José dos Campos (SP), foi transferida para João Pessoa (PB) em outubro de 2024.
Destinação dos recursos e nova garantia
O dinheiro obtido através do empréstimo do Banco Master teria sido utilizado em abril de 2024 na aquisição de um terreno de mais de 400 hectares em João Pessoa. Segundo a Folha de S. Paulo, o local, que abrigava uma antiga fábrica de cimento desativada, será transformado em um novo bairro na capital paraibana. O valor total da aquisição dos terrenos teria sido de R$ 45 milhões, parte financiada pelo crédito do Master.
Posteriormente, o empréstimo foi lastreado em um terreno com valor compatível ao crédito, adquirido com recursos, em parte, provenientes do próprio financiamento. Contudo, no momento da assinatura do contrato, a garantia oferecida foram as cotas da empresa de R$ 100 mil, e não o imóvel que seria comprado posteriormente.
Posicionamentos e desdobramentos da investigação
Procurada, a assessoria da cunhada de Arthur Lira declarou à Folha de S. Paulo que o contrato de crédito foi celebrado “em condições usuais de mercado, mediante garantias fiduciárias compatíveis com o valor da operação”. Afirmou ainda que a escolha do Banco Master se deu pelas condições negociais e que a empresa “não possui qualquer relação societária, comercial ou de gestão com o deputado”.
Arthur Lira, questionado pelo Estadão, não confirmou nem negou diretamente a intermediação, afirmando que a reportagem “não iria arrancar” uma declaração dele. Sua defesa pública se concentrou em argumentar que a operação financeira seguiu parâmetros de mercado e que o empréstimo está sendo quitado regularmente. A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou sobre a operação.
As investigações da Polícia Federal, parte da complexa Operação Compliance Zero, analisam se existe relação entre o empréstimo e uma emenda parlamentar que propunha destinar recursos ao mercado de créditos de carbono, setor que poderia beneficiar os negócios da família de Vorcaro. O celular do ex-banqueiro se tornou uma fonte crucial de evidências, revelando um mapa de relações entre ele e figuras influentes dos três Poderes.