Lula chega ao fim do mandato com discurso de “reconstrução” e lista de promessas descumpridas, enquanto oposição aponta “kit reeleição”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2022 com a promessa de reconstruir o país, enfrenta o último ano de seu mandato com diversas promessas de campanha que não saíram do papel ou avançaram apenas parcialmente. Esse descompasso entre discurso e entrega tem sido explorado por adversários e pode impactar seus planos de reeleição em 2026.
Parte dessas promessas é criticada por seguir diretrizes ideológicas de esquerda, como maior intervenção estatal e expansão de gastos, ou por ter um viés populista. O cientista político Alexandre Bandeira destaca a desconexão entre o discurso eleitoral e a prática administrativa, afirmando que promessas se tornaram meros instrumentos simbólicos de persuasão.
Recentemente, o governo intensificou a adoção de medidas econômicas apelidadas de “kit reeleição”, focadas em ampliar benefícios sociais e fiscais para o eleitorado de baixa renda e a classe média, visando o período pré-eleitoral. Essas ações, embora populares no curto prazo, são criticadas por analistas por aumentarem a rigidez orçamentária e o endividamento público, que caminha para cerca de 84% do PIB até o fim de 2026, potencialmente comprometendo a sustentabilidade fiscal do país.
A oposição no Congresso pretende explorar as promessas não cumpridas. “Queremos mostrar ao povo brasileiro que Lula prometeu e nada fez”, afirmou o líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), à Gazeta do Povo. A reportagem realizou um levantamento de pelo menos 10 pontos que indicam frustrações em áreas sensíveis como segurança pública, transparência e custo de vida.
Em resposta, o governo federal afirmou que tem se dedicado à “reconstrução de políticas públicas e sociais” e que as ações visam atender áreas críticas negligenciadas na gestão anterior, registrando avanços importantes relacionados aos compromissos de 2022.
Picanha e cerveja: o símbolo da promessa de volta à mesa do brasileiro que não se concretizou
A icônica promessa de Lula de que o povo voltaria a “comer picanha e tomar uma cervejinha” tornou-se um símbolo do discurso popular da campanha. Apesar de declarações posteriores do presidente reafirmando o compromisso, dados do IPCA, divulgados pelo IBGE no início de 2026, mostram que após um recuo inicial em 2023, os preços da carne e da cerveja registraram alta em 2024 e 2025. A picanha acumulou alta de 8,74% em 2024 e 2,82% em 2025, enquanto a cerveja aumentou 4,5% em 2024 e 5,97% em 2025.
Uma pesquisa do Paraná Pesquisas em abril de 2025 indicou que 68,4% dos brasileiros sentem dificuldade em comprar picanha e cerveja, e 73,7% perceberam aumento de preços nos supermercados após o retorno de Lula ao governo. Segundo o cientista político Alexandre Bandeira, frases como essa têm forte poder de convencimento por tocar em temas como alimentação, renda e lazer, e a naturalização do descumprimento de metas é uma realidade na política brasileira.
Sigilo de 100 anos: promessa de transparência que se manteve em xeque
Lula prometeu o fim do sigilo de 100 anos em documentos oficiais, medida apresentada como um marco de transparência após o governo Bolsonaro. Embora tenha quebrado sigilos impostos pelo governo anterior, o próprio presidente impôs sigilos de 100 anos a informações sobre a agenda da primeira-dama Janja da Silva em 2023, gerando críticas de incoerência. Em 2024, o governo editou uma norma para extinguir a presunção automática do “sigilo de 100 anos”, mas a Lei de Acesso à Informação (LAI) ainda permite o sigilo em casos específicos, mantendo a possibilidade teórica.
Mandato único: a promessa de um ciclo que foi revista para a reeleição
Em 2022, Lula afirmou que faria um “mandato só”, compromisso registrado em suas redes sociais. No entanto, em outubro de 2025, ele declarou que disputará a reeleição em 2026. Essa mudança de posição foi vista por adversários como incoerência e apego ao poder. Alexandre Bandeira explica que a promessa inicial visava construir uma imagem mais “aceitável” para o eleitorado, facilitando a eleição, sem necessariamente um compromisso real de se manter distante das urnas.
Ministério da Segurança Pública: uma promessa que ainda busca espaço
Durante a campanha, Lula defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública, separado da Justiça, para coordenar políticas nacionais e apoiar governadores. A proposta foi deixada de lado na transição, mas ressurgiu em 2024 com o então ministro Ricardo Lewandowski. Em janeiro de 2026, a ministra Gleisi Hoffmann indicou que o governo poderá avançar com a criação da pasta, dependendo da aprovação de uma PEC no Congresso. A iniciativa é criticada por governadores e pela oposição por concentrar poder em Brasília e esvaziar a autonomia dos estados.
Protagonismo internacional: ativismo diplomático com influência questionada
Lula prometeu resgatar o protagonismo internacional do Brasil, criticando o isolamento do país no governo anterior. Ampliou viagens e discursos em fóruns multilaterais, mas o ativismo diplomático não se traduziu em maior influência global. O alinhamento com países como China, Rússia, Venezuela e Cuba, e críticas aos EUA, geram críticas da oposição. O deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) considera o estreitamento com a Rússia vulnerável no cenário geopolítico. O fracasso da COP 30 em Belém também é apontado como um revés na influência ambiental brasileira.
Regulação de redes sociais: um plano que esbarra na liberdade de expressão
Desde 2021, Lula defende a “regulação das redes sociais” para combater desinformação e discursos de ódio. Após os atos de 8 de janeiro de 2023, o tema ganhou força no governo, mas a proposta enfrentou resistência no Congresso, com divergências sobre o alcance e viabilidade. O “PL das Fake News” perdeu força, e outras iniciativas não avançaram, deixando a ampla regulação das big techs sem concretização. Críticos apontam riscos de censura e concentração de poder, com a ausência de critérios objetivos para definir “desinformação”.
Autoridade Climática: projeto ambientalista que não vingou no Planalto
A criação de uma Autoridade Climática foi apresentada como um compromisso ambiental estratégico, mas tratou-se de uma concessão às alas ambientalistas da esquerda. A proposta previa um órgão com forte poder de coordenação sobre políticas climáticas. Na prática, representaria mais uma instância burocrática. O tema foi discutido em 2024, mas gerou racha interno no governo e voltou para a gaveta, evidenciando seu caráter mais simbólico do que prático. O governo comentou que o período foi marcado por reforço de ações ambientais e conquista de protagonismo.
Revisão da reforma trabalhista: demanda sindical engavetada
Lula prometeu uma ampla revisão da reforma trabalhista de 2017, com revogação de pontos centrais e ampliação da proteção social, atendendo a demandas de sindicatos. No entanto, nenhuma proposta estruturada foi enviada ao Congresso. O tema perdeu espaço na agenda econômica por receio de insegurança jurídica e afastamento de investimentos. O Palácio do Planalto evitou detalhar planos, limitando-se a destacar indicadores positivos do mercado de trabalho, como a geração de empregos formais.
Trabalhadores de aplicativos: direitos ainda em definição
A regulamentação do trabalho por aplicativos foi tratada como prioridade por Lula para garantir direitos e proteção social. Grupos de trabalho foram criados, mas o processo terminou sem consenso. Empresas alegam inviabilidade econômica, e há divisão entre os trabalhadores. O governo propõe maior vínculo trabalhista, remuneração mínima e seguro de acidentes, mas uma reunião com o Congresso foi adiada. O ministro Guilherme Boulos reafirma o compromisso com a regulamentação.
Escala 6×1 e transporte gratuito: promessas de apelo eleitoral
A proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1 ganhou centralidade no discurso do governo como bandeira social para 2026, prevendo redução da jornada e ampliação de descanso sem cortes salariais. O projeto enfrenta forte resistência do setor produtivo. O governo não apresentou estudos conclusivos, indicando exploração política. Paralelamente, Lula impulsiona a ideia de transporte público gratuito em todo o país (tarifa zero), vista por especialistas como inexequível em escala nacional e com forte viés eleitoreiro, sem fonte de financiamento definida.
Isenção de IR e Gás do Povo: agenda da esquerda com ônus para o orçamento
A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o novo vale-gás (Gás do Povo) foram aprovados e integram o “kit reeleição”, atendendo à agenda da esquerda com ônus para o orçamento público. A mudança na tabela do IR, sancionada em novembro de 2025, reduziu a arrecadação federal e depende de compensações controversas. O Gás do Povo garante a gratuidade do botijão para famílias de baixa renda inscritas no CadÚnico. Parlamentares da oposição criticam os programas por seu caráter assistencialista e eleitoral.