Ser mãe é viver a loucura do amor cristão: como a teologia encontra a divindade nos desafios da maternidade
A experiência de ser mãe, frequentemente descrita como uma jornada de amor incondicional e desafios diários, ganha uma nova dimensão quando observada sob a ótica da teologia cristã. A aparente contradição entre a sabedoria divina e a “loucura” da fé se revela nos atos mais simples e nas renúncias que definem a maternidade, ecoando o mistério da Encarnação de Cristo.
A teóloga e mãe, em sua reflexão, desvenda como os ensinamentos de figuras como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho se aplicam à vida cotidiana, mostrando que a salvação não se limita a grandes atos de fé, mas se manifesta na entrega e no amor que moldam a dinâmica familiar. Essa perspectiva oferece um olhar profundo sobre o significado eterno das tarefas maternas.
Conforme detalhado em sua análise, a jornada da maternidade, assim como a Encarnação de Cristo, desafia a lógica mundana. A renúncia pessoal, o esvaziamento de si e a dedicação aos filhos se tornam um reflexo do amor divino que se inclina à fragilidade humana. Essa visão, divulgada pela autora, encontra eco em sua experiência pessoal, especialmente com a chegada de seu filho caçula.
A “loucura da pregação” na vida real
A autora inicia sua reflexão com um episódio cotidiano: a pergunta de seu filho de três anos sobre a saliva de Jesus na cura do cego. Essa cena simples abre portas para a contemplação teológica, onde os papéis de teóloga e mãe se entrelaçam. Ela destaca que os detalhes nos Evangelhos, como Jesus cuspindo na terra, não são meros adornos, mas convites à investigação profunda do mistério da Encarnação.
São Tomás de Aquino, em sua obra, enfatiza que Cristo nos salva não apenas por seu poder divino, mas através do mistério de sua Encarnação. Isso significa que tudo o que Cristo fez e sofreu, incluindo os aspectos mais humanos e aparentemente banais, possui um caráter salvífico. A teóloga ressalta que esses detalhes são para serem investigados e vivenciados, questionando que tipo de Deus chora, sente sede ou cura com barro e saliva.
A Encarnação como ato de amor apropriado
Um dos ensinamentos centrais de São Tomás de Aquino sobre a Encarnação é que ela não foi uma necessidade absoluta, mas um ato de amor “apropriado”. Deus poderia ter escolhido outro caminho para a salvação, mas optou por vir ao mundo em carne, tornando-se conhecido através da própria criação que, devido ao pecado, não mais O compreendia plenamente. A citação de 1 Coríntios 1:21 é central aqui: “Deus decidiu salvar os que creem pela loucura da pregação”.
Cristo se fez humano, vindo ao nosso nível e utilizando nossos sentidos para se revelar. São Paulo descreveu essa obra como a “loucura da pregação”, um conceito que ressoa profundamente na tradição cristã. A segunda pessoa da Trindade, o Verbo do Pai, assumiu as limitações humanas, pronunciando palavras e vivenciando a linguagem humana, ecoando a forma como a Sabedoria divina se manifestou.
A sabedoria do mundo versus a sabedoria da maternidade cristã
A maternidade, assim como a Encarnação, é frequentemente vista como uma “loucura” pela lógica do mundo. A autora compara a missão de Cristo, que aos olhos de muitos foi um fracasso, com a criação de filhos. Gerar e criar filhos é um ato de aparente desperdício de tempo e recursos para a mentalidade mundana, que preza pela carreira e pelo conforto individual.
Em contraste, a sabedoria da maternidade e paternidade cristãs é radicalmente diferente. A teóloga exemplifica com sua própria vida, onde suas qualificações acadêmicas e intelectuais são secundárias para seus filhos, que buscam brincadeiras, abraços e a repetição de histórias. Ela relata as falas mais inusitadas que se tornam rotina, como “Você não pode usar seus ícones como porta-copos” ou “Não comemos atum com as mãos”, evidenciando a “tolice de palavras” que caracteriza a paternidade.
O amor que se esvazia: um reflexo do amor divino
A experiência materna, para a autora, tem sido uma revelação concreta do amor que se esvazia de si mesmo. Ela compreende, de forma mais profunda, o significado da vinda de Cristo e o convite à participação no amor divino. A liberdade experimentada na juventude é reinterpretada como uma simulação da verdadeira liberdade encontrada no amor de Deus.
A maternidade, portanto, torna-se um caminho de volta para casa, onde a mãe é um lar para seus filhos. A autora expressa gratidão pelaquele que abriu o caminho e, ao mesmo tempo, a convida a ser um reflexo desse amor. O nascimento de seu filho caçula, recebido com imenso amor pelos irmãos mais velhos, reforça a beleza e a profundidade desse amor cristão que se manifesta na loucura da entrega e do cuidado diário.