Análise de celular de Daniel Vorcaro expõe relação íntima com Alexandre de Moraes, com mensagens de “gratidão de vida” e benefícios luxuosos
A Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, obteve acesso ao celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Os dados revelam uma relação de estreita amizade e dependência entre Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
As informações, encaminhadas ao ministro relator André Mendonça e posteriormente à Procuradoria-Geral da República (PGR), detalham uma série de contatos frequentes, reuniões reservadas e contratos milionários. Um ponto de destaque são as mensagens de “gratidão de vida” enviadas pelo banqueiro ao ministro, evidenciando um profundo agradecimento.
“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo”, escreveu Vorcaro. A PGR, por sua vez, defendeu a nulidade do relatório da PF e criticou a atuação de Mendonça. Conforme apuração jornalística, nem o ministro Alexandre de Moraes nem a defesa de Vorcaro se manifestaram sobre o caso.
Tratamento informal e encontros sigilosos marcam a relação
As mensagens extraídas do aparelho celular de Daniel Vorcaro indicam um tratamento informal e uma frequência notável de encontros entre o ex-banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes. Vorcaro se referia ao magistrado de maneira íntima, utilizando apelidos como “meu caro” em conversas e, em diálogos com sua então namorada, mencionava Moraes como “Alexandre” ou “Alex” ao relatar os frequentes encontros.
Essa proximidade se estendia à organização de eventos sociais. Vorcaro promovia jantares que incluíam as esposas de ambos, demonstrando um convívio social além das questões profissionais. A relação também se manifestava através de favores diretos aos filhos do ministro.
Um exemplo notório foi a mobilização da equipe de Vorcaro para garantir credenciais “VIP 1” e acomodações em uma “boa mesa” para a filha de Alexandre de Moraes e seu irmão. O objetivo era que pudessem assistir a um treino na Arena MRV, em Belo Horizonte. Essa atuação demonstrava a disposição de Vorcaro em atender às demandas da família do ministro.
Mimos de luxo e experiências exclusivas para o ministro e comitiva
Além dos favores logísticos, Daniel Vorcaro proporcionou experiências de lazer luxuosas para Alexandre de Moraes e sua comitiva. Em uma ocasião, em um hotel de alto padrão em Campos do Jordão (SP), o ex-banqueiro organizou uma “experiência completa” que incluía atividades com cavalos e o serviço de seu chef de cozinha particular.
Essa oferta de mimos e benefícios de luxo reforça a intensidade da relação entre Vorcaro e Moraes. A investigação da PF sugere que esses privilégios eram parte de um padrão de relacionamento, onde o banqueiro buscava agradar e facilitar a vida do ministro e de seus familiares.
Os registros periciais do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025, indicam que a aproximação com Alexandre de Moraes precedeu a relação comercial com a esposa do magistrado, Viviane Barci de Moraes. O escritório dela firmou um contrato milionário com Vorcaro posteriormente.
Intermediários e contratos milionários moldam a rede de influência
A relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes foi articulada por uma rede de intermediários e operadores, conforme detalha o relatório da PF. O ex-deputado Fábio Faria desempenhou um papel crucial, agendando jantares e gerenciando os encontros de forma discreta.
Faria relatou que Vorcaro o procurou para obter uma opinião sobre a contratação do escritório de Viviane Barci de Moraes. Ele recomendou o trabalho da advogada, mas negou participação em reuniões ou conhecimento dos valores negociados. A PGR, por sua vez, questionou a atuação do ministro relator André Mendonça, apontando duas ilegalidades na investigação.
Um advogado, atuando como elo, teria intermediado contato entre Vorcaro e o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Uma mulher também gerenciava demandas logísticas e de marketing, coordenando diretamente com o gabinete de Moraes e com Viviane a programação de eventos e emissão de passagens aéreas.
Um dos advogados de Vorcaro elaborou contratos para reduzir o “risco reputacional” para a família do ministro, propondo estruturas societárias alternativas para ocultar a propriedade de bens. O primeiro contrato entre o Master e o escritório Barci de Moraes, em janeiro de 2024, previa honorários mensais de R$ 3 milhões líquidos e vigência de 3 anos. A PF constatou que Alexandre de Moraes revisou diretamente as minutas deste contrato.
Benefícios de luxo e aeronaves à disposição da família Moraes
A família Moraes foi destinatária de diversas vantagens financeiras, logísticas e de luxo fornecidas por Daniel Vorcaro. Além dos contratos milionários, a investigação aponta para o uso de aeronaves de luxo como forma de pagamento. Um segundo contrato, com a Vikings Participações, de Vorcaro, em maio de 2025, tinha limite remuneratório de R$ 50 milhões.
Este contrato incluía um “Termo de Acordo e Dação em Pagamento” de R$ 40 milhões, representados pela transferência de cotas de empresas controladas por Vorcaro. Essas cotas davam direito ao uso de um jato executivo e um helicóptero avaliados em milhões de dólares.
Mensagens confirmam o uso efetivo das aeronaves pela família do ministro. Viviane de Moraes, em resposta a um sócio de Vorcaro, expressou satisfação com o atendimento recebido. Vorcaro, por sua vez, orientou sua equipe a “não deixar de atender Barci”. O escritório Barci de Moraes afirmou que o ministro analisou o contrato a pedido do setor de compliance e que não haveria impedimento legal, pois Moraes nunca julgou causas envolvendo o Master.
Pedido de fuga e desespero: Vorcaro buscou orientação de Moraes
A proximidade e confiança entre Vorcaro e Moraes ficaram evidentes em novembro de 2025, período que antecedeu a Operação Compliance Zero e a primeira prisão do ex-banqueiro. Diante de rumores de uma medida judicial contra seus negócios, Vorcaro buscou orientação de Moraes sobre a possibilidade de fugir do país.
Em uma mensagem enviada a Moraes, Vorcaro demonstrava desespero: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz […]? E o Galipolo está sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Para os investigadores, essa comunicação indica que o ex-banqueiro buscou informações privilegiadas sobre investigações em andamento.
Dois dias após essa comunicação, a PF deflagrou a operação e apreendeu o celular de Vorcaro, que foi preso pela primeira vez ao tentar deixar o país. Sua defesa alegou que ele viajava a trabalho para negociar a venda do banco nos Emirados Árabes Unidos.
PGR contesta investigação e oposição pressiona por afastamento de Moraes
O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade da petição de investigação de André Mendonça, apontando duas ilegalidades. A primeira, por Mendonça ter determinado a investigação de pessoas específicas sem pedido prévio do Ministério Público ou da PF. A segunda, por investigar ministros do STF, o que, segundo Gonet, deveria ser encaminhado ao plenário da Corte.
Gonet argumentou que a ordem judicial direcionou a PF a investigar Moraes, cujo nome já aparecia em informes policiais anteriores. Para o procurador-geral, essas irregularidades comprometem toda a investigação. A oposição no Congresso intensificou a ofensiva contra Alexandre de Moraes, articulando um novo pedido de impeachment e defendendo o afastamento cautelar do ministro.
Senadores solicitaram uma sessão com a presença de Moraes para esclarecimentos e anunciaram obstrução no Senado para pressionar pelo afastamento. As medidas também atingem a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Contra Paulo Gonet, foi apresentada uma queixa-crime, questionando sua atuação diante dos fatos envolvendo Moraes e Vorcaro.