Ofensiva dos EUA contra Ditaduras na América Latina: Lula e a Esquerda Brasileira sob Pressão com Retorno de Pautas Históricas

Ofensiva dos EUA contra Ditaduras na América Latina: Lula e a Esquerda Brasileira sob Pressão com Retorno de Pautas Históricas

Resumo

EUA pressionam ditaduras de esquerda na América Latina, impactando Brasil e a posição de Lula

A escalada da pressão dos Estados Unidos sobre regimes considerados ditatoriais e grupos de esquerda na América Latina promete ter reflexos significativos no Brasil. A ofensiva, liderada pelo Secretário de Estado, Marco Rubio, tem como alvos prioritários Cuba, Nicarágua e Venezuela, mas também traz à tona ligações históricas entre o regime cubano e organizações guerrilheiras, incluindo menções a conexões com o Brasil.

Em Washington, Rubio destacou que o terrorismo de extrema-esquerda foi negligenciado por décadas pelas democracias ocidentais. Ele apresentou um relatório que detalha o apoio de Cuba a diversas organizações armadas, um ponto que resgata a discussão sobre os laços de parte da esquerda brasileira com o governo cubano. Essa iniciativa ocorre em um momento de deterioração nas relações diplomáticas entre Brasília e Washington.

“Por muito tempo, nossa doutrina antiterrorista teve um ponto cego no que se refere à violência extremista da esquerda”, declarou Rubio, segundo a fonte. Ele observou que a percepção dessa ameaça muitas vezes é tratada como um delírio da direita ou uma conspiração fascista. Apesar de a referência ao Brasil ser histórica e não implicar acusações de atuação de guerrilhas atuais, ela reacende debates sobre vínculos passados da esquerda brasileira com Cuba, o que aumenta o constrangimento em setores que mantêm relações com esses regimes.

Tensão diplomática e divergências políticas entre Brasil e EUA se acentuam

A estratégia americana, parte de um plano mais amplo do governo Donald Trump para isolar regimes autoritários, tem ampliado sanções contra Cuba e endurecido a posição em relação à Nicarágua, com reforço em ações de inteligência e restrições financeiras. No Brasil, o desgaste nas relações com os EUA aumentou devido a divergências sobre Venezuela e Cuba. Trocas recentes de críticas entre Rubio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva evidenciaram a contaminação do ambiente político pelas diferenças ideológicas.

Analistas apontam que a combinação de pressão econômica, discurso ideológico e ações de inteligência visa aprofundar o questionamento sobre redes políticas e institucionais ligadas a regimes adversários aos interesses americanos na região. Essa pressão coincide com o avanço eleitoral da direita e centro-direita na América Latina, com novos governos mais alinhados a Washington ganhando espaço.

Passado da esquerda brasileira volta ao debate internacional

A nova abordagem dos EUA também reabre discussões sobre o passado de líderes da esquerda brasileira. Integrantes históricos do PT, por exemplo, participaram de organizações que defenderam a luta armada ou viveram exilados em Cuba nas décadas de 1960 e 1970. Embora esses episódios não equiparem o PT a organizações terroristas nem signifiquem que Washington trate partidos brasileiros como alvos diretos, o resgate histórico aumenta o constrangimento sobre setores da esquerda com ligações com Cuba, Venezuela e Nicarágua.

O terceiro mandato de Lula tem sido marcado por um diálogo com governos autoritários, condenação de sanções a Cuba e críticas a iniciativas contra a Venezuela, posições que a oposição brasileira considera uma aproximação com regimes autoritários, enquanto o governo defende como soluções diplomáticas. O discurso antiamericano de Lula ganhou intensidade, com críticas à hegemonia do dólar, defesa dos Brics e aproximação com China, Rússia e Irã.

Tarifas e trocas de farpas marcam o atrito bilateral

A disputa bilateral se tornou pessoal com o fracasso das negociações para evitar tarifas sobre produtos brasileiros. Rubio atribuiu a Lula a responsabilidade pelo impasse, alegando que o presidente colocou seu “ego” acima dos interesses nacionais. Em resposta, o Brasil sofreu uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos, justificada pelos EUA pelo uso de trabalho forçado. O Palácio do Planalto classificou as tarifas como injustas e politicamente motivadas, com Lula sugerindo que o governo americano busca favorecer a oposição e prometendo “derrotar” Rubio.

Lula já havia chamado Rubio de “latino-americano frustrado”, acusando-o de ressentimento por ser filho de imigrantes cubanos. Em outra provocação, desafiou-o a apoiar publicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro. A professora de Relações Internacionais da ESPM, Natália Fingermann, pondera que, embora seja cedo para cravar uma ameaça direta a políticos brasileiros, há um risco de ampliação de conceitos como “extrema-esquerda” ou “terrorismo” conforme os interesses estratégicos americanos.

Captura de Maduro e recepção a ditadores geram controvérsia

Um dos atos mais contundentes da nova política americana foi a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na Venezuela, justificada como combate ao narcoturáfico e a ameaças à segurança nacional. Em contraste, em maio de 2023, Lula recebeu Maduro em Brasília com cerimônia oficial, afirmando que uma “narrativa de antidemocracia e autoritarismo” havia sido construída contra a Venezuela, declaração criticada por líderes regionais e assessores de Trump.

Fingermann alerta que categorias políticas podem ser ampliadas por interesses estratégicos, exigindo critérios objetivos para evitar que atinjam rivais políticos e restrinjam liberdades. A ofensiva dos EUA contra ditaduras de esquerda na América Latina, portanto, levanta questionamentos sobre a política externa brasileira e suas relações com regimes controversos, em um cenário de crescente tensão ideológica na região.

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