A expansão global do crime organizado brasileiro: PCC e CV forjam parcerias na África e Ásia
O cenário do crime organizado no Brasil ultrapassou as fronteiras nacionais. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) têm intensificado suas operações, estabelecendo consórcios criminais transnacionais que agora se estendem para a África e Ásia. Essa expansão, impulsionada pela busca por novas rotas de tráfico e mercados consumidores, transforma o continente africano em um centro logístico crucial para a distribuição global de cocaína.
Investigações conjuntas da Polícia Federal, Receita Federal, Interpol e estudos acadêmicos apontam para uma sofisticação crescente dessas redes. A cooperação com cartéis latino-americanos, máfias europeias e, mais recentemente, com organizações criminosas africanas, demonstra a capacidade dessas facções em movimentar grandes volumes de drogas, lavar dinheiro e explorar fragilidades institucionais em diversos países.
Essas descobertas, detalhadas no estudo “Floresta em Pó”, publicado em outubro de 2025, revelam um mapa complexo de rotas e parcerias. A África, antes vista apenas como ponto de passagem, consolida-se como um eixo fundamental na cadeia do narcotráfico, conectando a produção sul-americana aos mercados europeus, do Oriente Médio e asiático. Conforme aponta a análise, essa tendência indica uma diversificação de destinos finais, com a expansão para mercados como Dubai, Singapura e Índia.
Golfo da Guiné: O Novo Corredor do Narcotráfico Africano
O Golfo da Guiné emergiu como um corredor estratégico para o tráfico de drogas na África. Portos em países como Nigéria, Gana e Costa do Marfim foram integrados a redes logísticas controladas, em parte, por facções brasileiras, como o PCC. Essas operações ocorrem em parceria com organizações nigerianas e cartéis colombianos, segundo o relatório internacional. A logística envolve o uso de portos brasileiros, como Santos, Paranaguá e Suape, para o escoamento de grandes remessas de cocaína, frequentemente ocultas em cargas de exportação.
Rotas Transatlânticas: A Importância dos Portos Nordestinos e do Atlântico Central
Outro eixo de atuação significativo se desenvolve no Atlântico Central, abrangendo Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau. A posição geográfica e a fragilidade institucional desses locais são fatores cruciais para o sucesso dessas rotas. Guiné-Bissau, inclusive, é descrita como um “narcoestado” por relatórios da ONU, servindo como ponto de armazenamento e transbordo de cocaína para a Europa. Portos como Praia, em Cabo Verde, e Dakar, no Senegal, recebem cargas de cidades como Natal, Pecém e Salvador, evidenciando a crescente relevância dos portos nordestinos nessa conexão transatlântica.
África do Sul e Norte da África: Plataformas de Redistribuição para Mercados Globais
Países como Moçambique, África do Sul e Namíbia também ganham destaque. O porto de Durban, na África do Sul, tornou-se uma plataforma de distribuição para múltiplos destinos, incluindo Europa, Oriente Médio e Ásia. Investigações da Polícia Federal já revelaram esquemas que utilizam portos sul-africanos para o envio de cocaína, camuflada em contêineres de café, por exemplo, demonstrando a integração entre redes brasileiras e operadores africanos. No norte da África, portos como Casablanca e Argel funcionam como plataformas de redistribuição para o Mediterrâneo, conectando redes brasileiras a grupos mafiosos europeus e redes marroquinas.
Vulnerabilidade e Desafios para o Combate ao Crime Organizado Transnacional
A expansão dessas rotas evidencia a vulnerabilidade dos controles fronteiriços e aduaneiros. Para Jorge Talarico Junior, presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB-SP, a crescente utilização de rotas africanas representa uma preocupação central para a segurança pública e a atuação coordenada dos estados no combate ao crime organizado transnacional. A natureza global dessas operações exige não apenas ações repressivas, mas também alinhamento político-institucional, harmonização legislativa e mecanismos de responsabilização eficazes para enfrentar essas estruturas criminosas altamente adaptáveis.