Terras Raras e IA: Brasil desperdiça ouro tecnológico e energético em meio a crise fiscal e juros altos

Terras Raras e IA: Brasil desperdiça ouro tecnológico e energético em meio a crise fiscal e juros altos

Resumo

O Brasil possui ativos estratégicos para a nova economia global, mas falha em aproveitá-los devido a disfunções internas e falta de visão de Estado.

O Brasil se encontra em uma posição geopolítica privilegiada, com vastas reservas de terras raras e uma matriz energética limpa, fatores cruciais para o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). No entanto, o país tem **desperdiçado uma oportunidade histórica** ao não conseguir superar problemas crônicos como juros elevados, dívida pública crescente e insegurança jurídica.

Enquanto a disputa entre EUA e China redefine cadeias de suprimentos globais, o Brasil detém a **segunda maior reserva mundial de terras raras**, essenciais para semicondutores e tecnologias avançadas. Além disso, sua matriz energética limpa é um ativo estratégico para a IA, que demanda energia massiva.

Apesar desse potencial, o país exporta matéria-prima bruta, repetindo um erro histórico, enquanto outras nações capturam os lucros da industrialização. Especialistas alertam que, sem reformas estruturais e uma política industrial coordenada, o Brasil corre o risco de ficar para trás. Conforme destacado por especialistas como Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, e Thiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, a **falta de investimento em produtividade** e a incapacidade de transformar riqueza geológica em desenvolvimento nacional são os principais entraves.

O paradoxo das terras raras e a dependência chinesa

A hegemonia da China no mercado de terras raras, minerais essenciais para a produção de chips e tecnologias de defesa, cria um cenário de **risco global**, especialmente com as tensões envolvendo Taiwan. Os Estados Unidos, buscando reduzir a dependência chinesa, pressionam por reconfigurações nas cadeias de suprimentos.

Empresas chinesas dominam cerca de 60% da extração e quase 90% do refino de terras raras. Essa liderança foi construída com **estratégias nacionais de longo prazo**, integrando academia, governo e indústria. A China já utilizou o controle desses minerais como instrumento de pressão geoeconômica.

A demanda global por terras raras deve crescer sete vezes até 2040, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). O Brasil, com seus depósitos de argilas iônicas em Poços de Caldas (MG), possui vantagens econômicas e ambientais na extração, mas **carece de plantas industriais para o processamento local**.

Energia limpa: um ativo ignorado na era da IA

A crescente demanda por energia para data centers, impulsionada pela IA, torna a **matriz energética limpa do Brasil um ativo de grande valor**. O país possui vastas fontes de energia hidrelétrica e eólica, com potencial para atrair investimentos em data centers.

No entanto, a falta de um plano industrial claro, instabilidade fiscal e juros elevados afastam investidores. Luciano Telo, diretor de investimentos do UBS no Brasil, enfatiza a necessidade de **condições amigáveis e um plano de desenvolvimento** para destravar investimentos, garantindo credibilidade fiscal e redução de juros.

A IA está criando uma “economia de duas velocidades”, onde setores tecnológicos avançam rapidamente, mas o restante da economia, incluindo o Brasil, corre o risco de ficar para trás. Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Wealth Management, alerta que a desaceleração nos investimentos em infraestrutura compromete o crescimento potencial de longo prazo do país.

O círculo vicioso da dívida, juros e falta de investimento

A raiz dos problemas brasileiros reside na **fragilidade fiscal**, com a dívida pública ultrapassando 78% do PIB e em trajetória de alta. O ajuste fiscal tem sido buscado majoritariamente pelo aumento de impostos, em vez de uma redução consistente de gastos.

Isso gera um círculo vicioso: fiscal frágil exige juros altos para controlar a inflação, o que afasta o investimento produtivo, reduz o crescimento e piora a arrecadação, forçando juros ainda mais altos. A taxa Selic, encerrando o ano em 15%, é o maior nível em 19 anos.

A insegurança jurídica, com decisões do Congresso ou Judiciário que alteram leis abruptamente, também afasta investidores. O câmbio é um vetor de risco para a inflação em 2026, e o déficit em transações correntes se deteriorou, com o investimento estrangeiro direto não sendo mais suficiente para financiá-lo.

O caminho para aproveitar as oportunidades globais

Para capitalizar seus trunfos geopolíticos, o Brasil precisa agir em três frentes simultaneamente. Primeiro, **estabilizar o fiscal pela contenção de gastos**, com ajuste via despesa e não aumento de impostos, o que pode gerar um ciclo virtuoso de menor inflação e juros. A sinalização de um Ministro da Fazenda forte seria um passo importante.

Segundo, **garantir segurança jurídica**, cessando decisões que alteram leis de forma abrupta e retroativa, proporcionando previsibilidade para o planejamento empresarial e atraindo investidores. Por fim, é crucial **implementar uma estratégia industrial coordenada**, como a proposta de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), integrando academia, governo e indústria para agregar valor localmente e transformar a riqueza geológica em desenvolvimento nacional.

Sem essas ações, o Brasil corre o risco de ver a janela de oportunidade se fechar, enquanto países com instituições mais confiáveis, mesmo com matrizes energéticas menos limpas, capturam os investimentos que poderiam transformar a economia brasileira.

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