Soberania em Risco: Lula defende o Brasil dos EUA, mas facções dominam território nacional

Soberania em Risco: Lula defende o Brasil dos EUA, mas facções dominam território nacional

Resumo

A defesa enfática da soberania nacional pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se tornado um eixo central de sua comunicação política. No entanto, essa estratégia carrega um risco significativo: a contradição entre a firmeza diante de pressões internacionais e a dificuldade do Estado em exercer autoridade sobre seu próprio território.

Enquanto o discurso busca projetar força contra ingerências externas, facções criminosas, garimpo ilegal e outras atividades ilícitas avançam, dominando bairros, cidades e rotas estratégicas em diversas regiões do país.

Essa dualidade abre espaço para questionamentos da oposição, que aponta a incongruência entre a defesa da soberania e a perda de controle sobre parcelas do território brasileiro, conforme dados e análises de especialistas. A informação é do portal G1.

A estratégia de soberania e a realidade do controle territorial

O conceito de soberania, para o professor de Relações Internacionais da Faap, Vinícius Rodrigues, envolve não apenas a autonomia para definir políticas, mas também a capacidade de exercer autoridade em todo o território nacional. Giuliano Miotto, advogado, destaca que o controle de comunidades por organizações criminosas, com imposição de regras próprias e restrição à circulação, representa um xeque-mate à soberania do Estado.

Miotto aponta que facções exercem um **poder paralelo** no Rio de Janeiro e em grandes centros urbanos, especialmente no Nordeste. Na Amazônia e no Pará, narcotraficantes e garimpeiros ilegais dominam rotas estratégicas, locais onde a soberania do Estado brasileiro é praticamente inexistente.

O cientista político Leonardo Barreto, da consultoria Think Policy, concorda, apontando uma **vulnerabilidade no discurso governista** que abre flanco para a oposição. Ele ressalta a incongruência de defender soberania quando não há controle sobre boa parte do território há bastante tempo.

Dados alarmantes sobre o avanço do crime organizado

Dados recentes reforçam essa percepção. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) de novembro de 2025 indicou que facções criminosas atuavam em 45% dos municípios da Amazônia Legal, um avanço de 32% em relação ao estudo anterior.

No Rio de Janeiro, o Mapa Histórico dos Grupos Armados estimou que cerca de 4 milhões de pessoas vivem em áreas sob influência de facções e milícias, com restrições ao direito de ir e vir. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou falhas na política nacional de enfrentamento a organizações criminosas transnacionais na faixa de fronteira.

Para o eleitor, a violência e a criminalidade interna são percebidas como ameaças mais diretas à soberania do que disputas tarifárias. Pesquisas eleitorais recentes, como as da BTG/Nexus, mostram que **violência e criminalidade** aparecem como a principal preocupação do eleitorado, superando saúde e corrupção.

O discurso de soberania como escudo político

Apesar da contradição, a estratégia do discurso soberanista trouxe dividendos políticos ao governo Lula, segundo Leonardo Barreto. Ele afirma que o discurso **resgatou o governo das cordas** em um momento de baixa popularidade, contribuindo para a recuperação da avaliação positiva.

Ao transformar o confronto com os Estados Unidos em um embate nacional, Lula conseguiu deslocar o debate público para uma agenda mais favorável, reduzindo temporariamente o desgaste com a criminalidade e a economia. Barreto descreve isso como uma estratégia de criar um inimigo externo para ocultar fracassos internos.

No entanto, a eficácia dessa tática pode ter atingido seu limite. Mesmo com o discurso de soberania, as pesquisas de intenção de voto para um eventual segundo turno mostram um cenário de empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, dentro da margem de erro.

A polarização do discurso e a percepção do eleitor

O discurso da soberania encontra maior ressonância na esquerda, dialogando com um sentimento antiamericano histórico. Para o eleitorado de centro, o efeito tende a ser mais limitado, com a direita tendo a oportunidade de explorar a questão da segurança pública como um **”calcanhar de Aquiles”** do governo.

Vinícius Rodrigues sugere que o impacto eleitoral dependerá da capacidade das campanhas de traduzir o conceito de soberania em questões concretas do dia a dia. Quanto mais a oposição associar soberania à segurança pública e à perda de controle estatal, menor será o impacto do discurso nacionalista governista.

A esquerda, por outro lado, busca converter o tema em um apelo de nacionalismo econômico, mobilizando sua base e parte do eleitorado de centro. Giuliano Miotto acrescenta que essa estratégia ganha força pela percepção de leniência do governo diante do avanço do crime organizado.

O debate foi potencializado pela reação do Planalto à classificação de facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Lula reagiu afirmando que o combate a essas facções é atribuição exclusiva do Estado brasileiro.

Miotto critica o governo, afirmando que ele **”se recusa a enfrentar adequadamente o domínio do crime organizado”** e se esconde sob um discurso soberanista por conveniência. Leonardo Barreto vê nesse episódio uma fragilidade do discurso governista, pois o governo evita falar sobre o tema, pois é justamente aí que a incongruência aparece de forma mais clara, com grupos criminosos exercendo influência sobre o território e o voto.

Tags:

Notícias todos os dias!

De domingo a domingo, as notícias que você não pode perder em seu e-mail.

Veja também