Direita Latino-Americana Ignora Trump e Fortalece Laços com a China: O Que Isso Significa para os EUA?
Governos de direita na América Latina, muitos alinhados ideologicamente com Donald Trump, têm demonstrado uma crescente articulação com a China, apesar da pressão exercida pela administração americana. Essa aproximação, focada principalmente em relações comerciais e cooperação bilateral, desafia a chamada “Doutrina Trump”, que busca limitar a influência de potências estrangeiras nas Américas.
As visitas de representantes de alto escalão de países como El Salvador, Chile e Equador à China em agosto sublinham a força da influência de Pequim na região. Esses encontros, mesmo com a advertência dos Estados Unidos, evidenciam a pragmática busca por parcerias econômicas vantajosas, onde a China se consolidou como um parceiro comercial crucial para diversas nações latino-americanas.
A capacidade da China de atrair esses governos, mesmo sob o escrutínio de Washington, demonstra a complexidade das relações internacionais na América Latina. A análise sugere que o alinhamento político não dita necessariamente o alinhamento econômico, abrindo espaço para negociações multifacetadas entre as nações da região, os Estados Unidos e a gigante asiática. Conforme divulgado pela agência Bloomberg, Margaret Myers, consultora sênior do Diálogo Interamericano, ressalta que a influência chinesa na região é impulsionada por fatores como o comércio, e que líderes regionais naturalmente priorizam seus principais parceiros comerciais.
China: O Novo Principal Parceiro Comercial da América Latina
O intercâmbio comercial entre a China e a América Latina experimentou um crescimento exponencial, saltando de aproximadamente US$ 14 bilhões em 2000 para mais de US$ 500 bilhões em 2024. Em muitos países, a China já substituiu os Estados Unidos como o principal destino de suas exportações e fonte de importações, um fato que molda as decisões políticas e econômicas dos governos locais.
Exemplos recentes ilustram essa tendência. Em agosto, Ernesto Castro, presidente da Assembleia Legislativa de El Salvador, visitou Pequim e se reuniu com Zhao Leji, chefe do Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional da China. Castro expressou a disposição de seu país em fortalecer o aprendizado mútuo e a cooperação prática com a China, segundo informações da agência estatal chinesa Xinhua.
Na mesma linha, Francisco Pérez Mackenna, Ministro das Relações Exteriores do Chile, realizou uma visita de cinco dias à China, encontrando-se com autoridades e líderes empresariais chineses. O presidente do Equador, Daniel Noboa, também se reuniu com o líder chinês Xi Jinping, retornando ao seu país com sete acordos de cooperação bilateral assinados em áreas estratégicas como segurança, comércio e energia.
A Reação dos Estados Unidos e a Doutrina Trump em Xeque
A crescente aproximação entre a direita latino-americana e a China tem gerado atritos com os Estados Unidos. Deputados americanos, como Carlos Gimenez, têm criticado projetos de infraestrutura chineses na região, como o Porto de Chancay no Peru, construído e operado por uma estatal chinesa, rotulando-o como um “Dragão de Troia”.
A decisão de um tribunal peruano em agosto, que determinou maior supervisão governamental sobre o Porto de Chancay, foi celebrada pelo embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro. Paralelamente, o embaixador americano na Argentina, Peter Lamelas, manifestou preocupação com a presença de tecnologia chinesa em setores estratégicos argentinos, como os campos de gás e petróleo de Vaca Muerta.
EUA Precisam de Alternativas para Conter a Influência Chinesa
Especialistas apontam que a estratégia dos Estados Unidos para conter a expansão chinesa na América Latina precisa ir além da pressão. João Alfredo Lopes Nyegray, professor de negócios internacionais da PUCPR, argumenta que os EUA precisam oferecer alternativas concretas, como a recuperação de espaço comercial e o financiamento de infraestrutura.
“O que está aparecendo na América Latina é uma dissociação cada vez mais clara entre alinhamento político e alinhamento econômico”, explica Nyegray. Ele sugere que países latino-americanos podem apoiar os EUA em questões de segurança e defesa, enquanto mantêm relações comerciais robustas com a China. A negociação permanente sobre quais áreas permanecem abertas a Pequim e quais serão reservadas aos interesses americanos é vista como o resultado mais provável.
Para reverter a tendência, os Estados Unidos podem ampliar o acesso ao seu mercado, reduzir barreiras comerciais e desenvolver acordos mais ambiciosos. Além disso, a mobilização de instrumentos financeiros como a International Development Finance Corporation e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) seria crucial para apresentar propostas competitivas e fortalecer a influência americana na região.