Bento Gonçalves: O Segredo da Cidade que Reduziu o Bolsa Família em 40% com Emprego e Autonomia Financeira

Bento Gonçalves: O Segredo da Cidade que Reduziu o Bolsa Família em 40% com Emprego e Autonomia Financeira

Resumo

Bento Gonçalves revoluciona assistência social ao priorizar o trabalho sobre o benefício contínuo, com resultados expressivos na redução do Bolsa Família.

A cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, apresenta um modelo de gestão social que tem chamado a atenção nacional. Em um período de pouco mais de um ano e meio, o município alcançou uma redução impressionante de 40% no número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família. Este feito questiona o paradigma de expansão ilimitada da assistência social, em voga na gestão federal atual.

A estratégia adotada pela cidade é notavelmente simples, mas eficaz: conectar diretamente os beneficiários do programa com empresas locais que demandam mão de obra. A iniciativa transforma a transferência de renda em um trampolim para o emprego formal, promovendo a autonomia financeira e a reinserção produtiva dos cidadãos.

Os números comprovam o sucesso dessa abordagem. Em novembro de 2024, Bento Gonçalves registrava 2.115 famílias no programa. Em abril de 2026, esse número caiu para 1.266, uma diminuição de 40%. Paralelamente, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho apontou a criação de 1.104 empregos com carteira assinada em 2025, um aumento de 2,5% em relação a 2024. Conforme informações divulgadas pelo Caged, essa performance demonstra a força da economia local em gerar oportunidades formais.

Ações Práticas para a Autonomia: A Abordagem de Bento Gonçalves

A prefeitura de Bento Gonçalves implementou uma metodologia ativa para reduzir a dependência de benefícios assistenciais. Segundo o ex-prefeito Diogo Siqueira, a gestão municipal realizava visitas domiciliares para verificar a situação real de cada beneficiário, com foco especial em indivíduos sem cônjuge ou filhos e aptos para o trabalho.

Após essa triagem, que assegurava a continuidade do auxílio para aqueles que realmente necessitavam, como mães solteiras com múltiplos dependentes, os agentes auxiliam na elaboração de currículos e na busca por empregos próximos à residência. Essa proximidade visa reduzir custos com transporte e facilitar o acesso ao mercado de trabalho.

Os setores que mais empregaram beneficiários incluem a indústria do vinho, agricultura familiar, indústria moveleira, turismo e metalmecânica. A diversidade econômica de Bento Gonçalves, com seus 128 mil habitantes, foi fundamental para essa reintegração ao mercado de trabalho. Siqueira ressalta que “a melhor assistência social é o trabalho”.

Diagnóstico Nacional: A Dependência do Bolsa Família e Seus Impactos

Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), divulgado em agosto de 2025, aponta um cenário preocupante: para cada duas famílias que recebem o Bolsa Família, uma deixa a força de trabalho. Desde a pandemia, o programa expandiu-se significativamente, com o valor médio dos benefícios mais que triplicando e o número de famílias atendidas crescendo expressivamente.

O desequilíbrio é ainda mais acentuado em nível estadual. Nove estados brasileiros possuem mais beneficiários do Bolsa Família do que pessoas empregadas formalmente. Em fevereiro de 2026, a proporção era de 38,6 beneficiários para cada 100 trabalhadores com carteira assinada, um indicador da profunda dependência de transferências de renda em muitas regiões, superando a capacidade de geração de empregos formais.

Claudio Shikida, professor de economia do Ibmec, define essa dependência como “esmolas institucionalizadas”, argumentando que o Bolsa Família não foi concebido para ser uma fonte de renda perpétua para gerações sucessivas. Ele aponta que “os interesses dos políticos que ganham votos com a dependência de alguns eleitores em relação ao Bolsa Família são uma variável que não pode ser ignorada”, o que cria um obstáculo à emancipação econômica.

O Estado Concorrente e o Desestímulo ao Trabalho Formal

Ricardo Gomes, CEO do Instituto Millenium, destaca que a questão principal reside na “vontade política”, não na capacidade técnica. O receio de perder apoio político imediato tende a superar os ganhos de longo prazo com a promoção da emancipação, gerando um “imobilismo político” que preserva o modelo atual mesmo com suas distorções.

A política de benefícios pode levar o Estado a competir com empresas no mercado de trabalho. Em regiões mais pobres, o valor somado dos benefícios pode se aproximar da renda de empregos formais de baixa qualificação, alterando os incentivos e dificultando a formalização. Famílias que buscam aumentar sua renda podem acabar optando por trabalhos informais, mantendo os benefícios.

Um levantamento de abril de 2026, coletado pelo DataBrasil, revela que cerca de 895 mil famílias encerraram 2025 recebendo mais de um salário mínimo apenas com assistências sociais. Nesses casos, os programas assistenciais desestimulam a transição para o mercado formal, criando uma situação onde é mais fácil encontrar trabalhadores para atividades pontuais do que para vínculos formais contínuos.

Caminhos para a Emancipação e o Fim da Dependência

Shikida sugere estratégias complementares para a emancipação, como a oferta obrigatória de cursos técnicos para beneficiários do Bolsa Família. Ele acredita que a melhora no ambiente de negócios é mais eficaz para as famílias do que a expansão indefinida de benefícios, mas isso exige uma mudança cultural na dependência estatal.

“Romper esse ciclo passa não só por liderança, mas por uma mudança inteligente nas regras do jogo”, conclui o economista, enfatizando a necessidade de políticas que promovam a autonomia e o desenvolvimento econômico sustentável.

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