Bispo Exilado da Nicarágua Acusa Ditaduras de Profanar Jesus com Poder Falso e Ignorar a Cruz

Resumo

Ditaduras “desgastadas” deturpam a fé cristã, alega bispo nicaraguense exilado

O bispo auxiliar exilado de Manágua, Silvio Báez, fez uma forte crítica a regimes autoritários, afirmando que as ditaduras que se apegam ao poder profanam o nome de Jesus ao atribuir a Ele o domínio que exercem, mas, paradoxalmente, nunca mencionam a cruz.

Em uma missa celebrada em Miami, o prelado destacou que tentar se colocar à frente de Jesus, em vez de segui-lo, leva à perda do discipulado e do caminho correto. Segundo Báez, é nesse contexto que ditaduras desgastadas, que se cobrem hipocritamente com o manto da religião, profanam o nome de Jesus.

Esses regimes, ao invocarem o nome de Cristo de suas posições de poder, buscam legitimar seu domínio sobre o povo, mas evitam falar da cruz, um símbolo de humildade, serviço e sacrifício. Essa declaração, feita em 30 de agosto, parece direcionada à ditadura Ortega-Murillo, que governa a Nicarágua, país onde a mídia pró-governo alega um governo cristão.

Apropriação da Fé para Legitimar o Autoritarismo

O bispo explicou que essas ditaduras se apropriam do nome de Jesus para dar verniz de legitimidade ao seu autoritarismo. Ao mesmo tempo, silenciam a figura do Crucificado, pois um messias que se humilha, serve e doa a vida pelos outros desmascara a arrogância desses líderes e condena suas ambições de permanência eterna no poder.

“Não se pode professar Jesus como Messias e Filho de Deus sem segui-lo pelo caminho da cruz”, ressaltou Báez, enfatizando a contradição intrínseca de regimes que invocam um líder religioso para justificar a opressão.

O Exílio e a Perseguição à Igreja na Nicarágua

Silvio Báez, bispo auxiliar de Manágua desde 2009, foi forçado a deixar a Nicarágua em abril de 2019. Sua saída ocorreu devido à sua defesa dos manifestantes que se opunham ao regime do presidente Daniel Ortega e de sua esposa, Rosario Murillo. A repressão a esses protestos, em 2018, resultou na morte de mais de 350 pessoas, segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Desde 2018, a ditadura nicaraguense tem perseguido implacavelmente a Igreja Católica. As ações incluem o controle sobre padres, a expulsão de religiosas, o confisco de fundos e propriedades da Igreja, a proibição de ordenações e o exílio de bispos. Um exemplo é o bispo Carlos Enrique Herrera Gutiérrez, de Jinotega, que foi expulso em 2025.

O próprio Báez teve que deixar o país a pedido do Papa Francisco, em 2019, por sérias preocupações com sua segurança. Ele reside atualmente em Miami. Em agosto de 2025, o Papa Leão XIV confirmou sua função como bispo auxiliar de Manágua, mesmo vivendo no exílio.

O bispo celebra missas todos os domingos na Paróquia de Santa Ágata, em Miami, onde os padres Marcos Antonio Somarriba e Edwing Román, também nicaraguenses exilados, atuam como pároco e vigário.

O Verdadeiro Significado de “Tomar a Cruz”

Báez explicou que “tomar a cruz” transcende a mera aceitação de contratempos e sofrimentos. A cruz, segundo ele, representa o preço de todo amor autêntico. Significa escolher uma vida semelhante à de Jesus, superando o medo de amar, amando sem limites e tornando-se vulnerável por amor.

“Tomar a cruz significa nos humilhar para entrar no mundo dos pobres e das vítimas, para ficar com eles, compartilhar sua angústia e restaurar a dignidade e a esperança que Deus deseja para eles”, acrescentou o bispo.

Ele enfatizou que “tomar a cruz significa aceitar as consequências, quase sempre dolorosas, de se esforçar para eliminar o sofrimento daqueles a quem a sociedade crucifica, assim como Jesus fez”.

A Perseguição aos Que Falam a Verdade em Mundos de Mentira

O prelado ressaltou que, em um mundo construído sobre mentiras, aqueles que falam a verdade são frequentemente perseguidos e silenciados. Em sociedades repletas de injustiça, os justos podem ser evitados ou até condenados à morte.

“Em um sistema onde os poderosos se exaltam como deuses e transformam seus caprichos em lei, qualquer um que seja crítico e se recuse a viver em submissão se torna alvo de calúnia, insultos e perseguição”, disse Báez.

O bispo também comparou certas atitudes à de Pedro, que não compreendeu o anúncio de Jesus sobre o sacrifício necessário para a salvação da humanidade. Pensar como Pedro, segundo ele, é não aceitar que, às vezes, a única forma de consertar as coisas é passar despercebido, esquecer-se de si mesmo, ser o último e sacrificar o que mais se preza.

“Também pensamos como Pedro quando não estamos dispostos a ser incomodados pelo bem dos outros, a fazer sacrifícios para que outros possam se sair melhor, ou a lutar por uma sociedade construída sobre a justiça”, apontou.

Muitos consideram imprudente falar contra os abusos dos poderosos, preferindo o silêncio ou um acordo. Outros acreditam que os problemas mundiais se resolvem com dinheiro, poder ou milagres. Contudo, Jesus ensina que as mudanças ocorrem quando escolhemos o caminho da pequenez e do auto-esquecimento, sacrificando-nos para colocar Deus e os outros em primeiro lugar, concluiu Báez.

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