Brasil perdeu a capacidade de pensar estrategicamente em um mundo em transformação, alertam Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut
O Brasil atravessa um período de profundas mudanças na ordem internacional, mas a diplomacia nacional parece navegar sem rumo, focando em debates superficiais e improvisando em vez de planejar. Essa percepção, compartilhada por especialistas como Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut, sugere que o país perdeu sua capacidade de pensar estrategicamente, algo mais valioso do que uma agenda diplomática coerente.
Enquanto o debate público se divide entre antagonismo aos EUA e aproximação com a China, a realidade geopolítica global já ingressou em uma nova era. A competição entre grandes potências retornou ao centro das atenções, com a guerra na Europa e conflitos no Oriente Médio redefinindo o poder mundial. A interdependência, antes vista como sinônimo de prosperidade, agora revela-se também como vulnerabilidade, com sanções e bloqueios se tornando instrumentos de coerção.
Essa análise, apresentada em artigo por Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut, aponta que países como Emirados Árabes Unidos e Indonésia, com estratégias claras e de longo prazo, têm se posicionado de forma mais assertiva no cenário global. Eles transformaram recursos naturais e vantagens geográficas em poder de negociação e desenvolvimento econômico, algo que o Brasil, apesar de seus vastos ativos, parece ter negligenciado.
A Nova Era Geopolítica e a Perda da Estratégia Brasileira
O mundo pós-Guerra Fria apostava na interdependência e em instituições multilaterais para gerenciar conflitos. Contudo, essa ordem mostrou-se insuficiente diante do retorno da competição entre grandes potências e da emergência de novas dinâmicas de poder. EUA e China disputam não apenas mercados, mas também tecnologias, influência política e padrões digitais.
A interdependência econômica, antes celebrada, agora expõe vulnerabilidades. Sanções financeiras, controles de exportação e dependência energética são usados como ferramentas de coerção. Grandes potências, como EUA e China, reorganizaram suas políticas externas com uma visão integrada de segurança, indústria e tecnologia, enquanto o Brasil parece ter ficado para trás.
Segundo Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut, o dado mais incômodo para o Brasil não vem das superpotências, mas de potências médias que demonstram visão estratégica. Exemplos como os Emirados Árabes Unidos, que investiram em fundos soberanos e tecnologia, e a Indonésia, que condicionou a exportação de minerais à industrialização local, evidenciam uma forma de inserção internacional tratada como projeto de longo prazo.
Potências Médias e a Lição de Casa para o Brasil
Os Emirados Árabes Unidos, com uma população menor que a Grande São Paulo, há mais de 20 anos definiram que o petróleo seria a compra do futuro, não do presente. Utilizaram fundos soberanos para investir em portos, logística, aviação e, mais recentemente, inteligência artificial, criando um ministério dedicado à IA em 2017.
Ao mesmo tempo, mantêm relações funcionais com EUA, China, Israel e Irã, sem se tornarem reféns de afinidades ideológicas. Essa capacidade de navegar em águas complexas demonstra um cálculo estratégico, não um mero equilíbrio retórico.
A Indonésia, país insular, tropical e democrático, é outro exemplo. Ao proibir a exportação de minério de níquel bruto e exigir a instalação de refinarias em território nacional, transformou-se de exportadora de minério para vendedora de aço inoxidável e precursores de baterias, inserindo-se na cadeia global de veículos elétricos.
A Turquia, com sua indústria de defesa desenvolvida em 20 anos, também ilustra essa capacidade de planejamento e execução de projetos de longo prazo. O que esses países têm em comum é a decisão de tratar a inserção internacional como um projeto estratégico, com objetivos definidos e instrumentos coordenados.
A Ausência de Estratégia e a Reorientação dos EUA
O Brasil, sob a gestão de Lula, perdeu a capacidade de pensar estrategicamente, trocando visão de Estado por visão de governo e planejamento por improviso. A política externa se tornou reativa, focada na conjuntura e em narrativas domésticas, com prejuízos de longo e curto prazo.
A reorientação dos EUA para o Hemisfério Ocidental, com a nova National Security Strategy, devolve centralidade à região no cálculo estratégico de Washington. A crescente presença chinesa em infraestrutura, tecnologia e mineração é vista como uma dimensão da competição global, tornando insustentável o malabarismo brasileiro de depender economicamente da China e antagonizar os EUA.
Decisões sobre tecnologia, minerais críticos e sistemas financeiros serão cada vez mais avaliadas por suas implicações estratégicas. Autonomia, segundo os autores, não se proclama, mas se constrói com capacidade industrial, tecnologia, inteligência e defesa, e não com retórica de soberania quando o país é dependente de terceiros.
O Conceito de Grande Estratégia e o Realismo Propositivo
A reforma necessária para o Brasil não é apenas uma mudança de orientação diplomática, mas a reconstrução da capacidade estratégica do Estado. Isso exige recolocar no centro do debate o conceito de **Grande Estratégia**, uma arquitetura intelectual e institucional de um projeto nacional de longo prazo que articula diversas áreas do poder nacional.
O método de execução proposto é o **Realismo Propositivo**, baseado em quatro premissas: proatividade, pragmatismo, protagonismo e planejamento permanente. Proatividade significa antecipar tendências e oportunidades, não apenas reagir a elas. Pragmatismo implica estruturar relações externas a partir de interesses concretos e avaliações de risco, não de solidariedades partidárias.
Protagonismo, para os autores, não é exibicionismo diplomático, mas a capacidade de influenciar decisões e organizar parceiros. Planejamento permanente envolve análise prospectiva, cenários e revisão contínua de prioridades. A Polônia, ao eliminar sua dependência do gás russo em uma década, é um exemplo de planejamento bem-sucedido.
O Futuro do Brasil: Pensar ou Ser Pensado
O Brasil possui ativos consideráveis, mas carece de uma arquitetura de poder que os converta em influência. A bifurcação tecnológica e mineral entre EUA e China exigirá do Brasil uma negociação ativa, não uma equidistância passiva. A crise na América do Sul, com fluxos migratórios e crime organizado, demanda uma resposta regional coordenada pelo Brasil.
A relevância futura do Brasil não virá de sua dimensão territorial ou tradição diplomática, mas da capacidade de construir, exercer e preservar seu poder. A escolha fundamental é entre pensar o mundo e ser pensado por ele. O Brasil tem o potencial de ser sujeito de sua própria história, mas para isso precisa decidir sê-lo, reconstruindo sua capacidade estratégica e adotando uma diplomacia que converta recursos em poder e prosperidade.
A reforma do Itamaraty é vista como condição de viabilidade para essa transformação, com foco na capacidade funcional, administrativa, organizacional e profissional, preparando a diplomacia para disputar influência no século XXI. A avaliação da rede diplomática deve ser baseada em resultados concretos, como abertura de mercados e atração de investimentos, e não apenas em eventos realizados.
Em suma, o Brasil precisa abandonar a cultura de administração da conjuntura e adotar uma de antecipação estratégica. A ausência de planejamento e prioridades claras, segundo Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut, levou o país à mediocridade e, em um mundo cada vez mais competitivo, à vulnerabilidade.