Entregadores criticam governo Lula: promessas não cumpridas e foco em crédito geram desconfiança
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta forte insatisfação entre os entregadores de aplicativos. Apesar de tentativas de regulamentação e de programas de crédito subsidiado, a categoria, que reúne cerca de 1,7 milhão de pessoas, sente-se ignorada e frustrada com as ações do Executivo.
A principal queixa reside no naufrágio de um projeto de lei que visava melhorar a remuneração dos trabalhadores, que não avançou no Congresso. Agora, as novas iniciativas de crédito são vistas com ceticismo, apontadas como meramente eleitoreiras e incapazes de resolver o cerne do problema: a baixa remuneração.
Representantes da categoria denunciam que o governo tem priorizado soluções financeiras em detrimento de discussões sobre direitos trabalhistas e melhores condições de trabalho. A falta de diálogo efetivo e a sensação de descaso, conforme aponta o IBGE, desgastaram a relação entre os entregadores e o Planalto, conforme informações divulgadas nesta matéria.
Crédito Subsidiado: Solução ou Armadilha para Entregadores?
Uma das apostas do governo é o programa Move Brasil, com uma linha de crédito de R$ 4 bilhões para financiar motos e bicicletas elétricas. Contudo, líderes da categoria, como Abel Santos, presidente da Associação dos Trabalhadores por Aplicativos e Motociclistas (Atam), questionam a eficácia da medida.
Santos argumenta que muitos entregadores já possuem restrições de crédito ou alto endividamento, o que dificulta a aprovação do financiamento. “Oferecer empréstimos não resolve o principal problema dos entregadores, que é a baixa remuneração paga pelas plataformas”, afirma.
A experiência com uma linha de crédito anterior para motoristas de aplicativo, no valor de R$ 30 bilhões, reforça o ceticismo. Dez motoristas com bom histórico de crédito foram testados pela Atam e, apesar da aprovação inicial, os bancos ofereceram financiamento parcial, insuficiente para a compra de veículos.
“Quando chegou ao banco, ofereceram financiamento de no máximo 25% do valor do carro. Ninguém conseguiu efetivar o financiamento. Se não funcionou para os motoristas, a expectativa para as motos é zero”, relata Abel Santos.
Ações “Eleitoreiras” e a Falta de Foco na Renda
Alexandre Santos, presidente da Associação União Maior, de Santa Catarina, classifica as ações governamentais como “eleitoreiras”, criticando o momento em que surgem. “As medidas chegaram tarde. O governo dialoga conosco desde o início do mandato e só agora, em período pré-eleitoral, começaram a aparecer essas iniciativas”, declara.
Ele enfatiza que o governo tenta solucionar um problema de renda com mais crédito, o que pode levar a um ciclo vicioso de endividamento. “Sem melhorar a remuneração, oferecer crédito significa apenas criar mais endividamento. Crédito sem renda não resolve”, pontua.
A preocupação com o endividamento é acentuada pela instabilidade do mercado de delivery. A chegada de novas plataformas chinesas pode gerar um aumento temporário na remuneração, mas lideranças da categoria alertam que esses ganhos costumam desaparecer rapidamente.
“É uma melhoria, mas ela tem uma duração muito limitada. É coisa de meses, às vezes até de um mês”, explica Alexandre Santos sobre os aumentos pontuais que servem para atrair entregadores e acelerar a expansão das operações das empresas.
Regulamentação Travada e Desgaste com o Governo
A frustração da categoria remonta à promessa de campanha de Lula de regulamentar o trabalho por aplicativos. Um grupo de trabalho foi criado, mas o projeto enfrentou resistência de plataformas e de parte dos entregadores, travando na Câmara.
O principal impasse foi a definição de uma remuneração mínima por entrega, defendida pelo ministro Guilherme Boulos, mas rejeitada por empresas e contestada por lideranças da categoria. Abel Santos critica a condução das negociações, que teria deixado de lado reivindicações prioritárias.
“A pauta ficou concentrada na remuneração mínima de R$ 10 por entrega, que não solucionava o problema. Nós queríamos discutir proteção ao trabalhador, piso e jornada, e isso nunca foi debatido”, lamenta o presidente da Atam.
Boulos na Mira: Acusações de Instrumentalização e Rompimento
A condução do processo de regulamentação também gerou acusações contra o ministro Guilherme Boulos, que teria instrumentalizado lideranças para negociar um projeto rejeitado pela base, visando fins eleitorais. Abel Santos alega que Boulos usou a Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativo (Anea) para atender seus interesses.
“Ele instrumentou as lideranças, criou uma narrativa única sobre as reivindicações dentro da bancada e, no final, negociou apenas o INSS, deixando o trabalhador sem direito a nada”, acusa Abel.
Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como “Paulo Galo”, ex-aliado de Boulos e figura importante nas mobilizações da categoria, também rompeu com o ministro e passou a criticá-lo publicamente.
A sequência de iniciativas, segundo a Atam, deixou uma imagem negativa do governo entre os entregadores. A expectativa é que programas de crédito lançados às vésperas da campanha eleitoral não revertam esse sentimento. “Se ele precisar de um voto da categoria para vencer o segundo turno, ele não vai ter”, afirma Abel Santos.