Flávio Bolsonaro atua nos EUA contra tarifaço e enfraquece narrativa de Lula sobre ameaça à soberania
O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), levou aos Estados Unidos uma estratégia para tentar desarticular um dos principais discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao recente tarifaço imposto pelo governo norte-americano.
Em audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio solicitou o adiamento das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros por 180 dias. Ele argumenta que a medida, se implementada antes das eleições, beneficia politicamente o governo do PT ao alimentar a narrativa de defesa da soberania nacional.
Segundo o senador, as sobretaxas americanas não têm surtido o efeito esperado sobre o governo brasileiro, sendo, em vez disso, exploradas politicamente. “Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro — exceto justamente as autoridades responsáveis por essas decisões”, declarou Flávio.
A viagem de Flávio aos EUA foi articulada pela pré-campanha do PL com o objetivo de esvaziar o discurso de Lula sobre a ameaça à soberania durante a campanha eleitoral. O principal argumento apresentado aos membros do USTR foi o de que a aplicação das tarifas antes das eleições produziria um efeito político contrário ao desejado pelos Estados Unidos.
Tarifas como Ativo Eleitoral para Lula, Argumenta Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro procurou convencer as autoridades americanas de que a imposição das tarifas agora fortaleceria o presidente Lula, permitindo que o governo explorasse a medida como uma afronta à soberania nacional. Este discurso tem sido adotado pelo petista desde o anúncio da investigação comercial americana.
O senador defende que uma eventual mudança de governo após as eleições de outubro poderia alterar o cenário das negociações comerciais entre os dois países. “Em apenas noventa dias, o cenário político do país poderá ser completamente diferente”, afirmou Flávio.
Essa estratégia marca uma mudança na abordagem do PL, que agora defende publicamente que os Estados Unidos aguardem o resultado das eleições, em vez de concentrar as críticas apenas ao governo Lula. A avaliação interna do partido é que a sobretaxa se tornou um ativo eleitoral para o presidente.
Antes de sua viagem, Flávio enviou um documento à Casa Branca prometendo, caso eleito, “nomear imediatamente um negociador para conduzir as negociações de boa-fé” e indicando medidas para resolver as acusações de comércio desleal contra o Brasil.
Pix Defendido e Promessas de Nova Política Comercial
Durante a audiência, Flávio rebateu críticas americanas ao Pix, afirmando que o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro ampliou a inclusão financeira sem prejudicar empresas dos EUA. “O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução”, declarou.
O senador também prometeu, em seu documento enviado à Casa Branca, não integrar o Pix a sistemas de países não ocidentais, desonerar o setor de cartões de crédito e buscar um acordo bilateral de comércio com os EUA, reduzindo a dependência brasileira do Mercosul.
Adicionalmente, Flávio mencionou que uma ampliação da oposição no Senado após as eleições poderia abrir caminho para processos de impeachment contra ministros do STF, associando a medida a decisões da Corte envolvendo plataformas de redes sociais americanas.
Governo Lula Evita Interlocução Direta com Flávio Bolsonaro
O governo Lula optou por não se manifestar oficialmente na audiência pública do USTR para evitar que Flávio Bolsonaro fosse reconhecido como um interlocutor legítimo do Brasil nas negociações comerciais. A avaliação é que a participação de um representante oficial colocaria governo e oposição em pé de igualdade.
Embora sem exposição oral, o governo enviou representantes para acompanhar os debates, preservando os canais diplomáticos oficiais conduzidos pelo Itamaraty, pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e pela Embaixada do Brasil em Washington.
Integrantes do governo consideram a audiência pública como consultiva e que ela não substitui as negociações técnicas em andamento. A condução das relações comerciais e diplomáticas é atribuição exclusiva do governo federal, e quaisquer compromissos assumidos por Flávio não possuem caráter oficial.
A Câmera Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) ainda vê espaço para uma solução negociada, alertando que a aplicação de novas tarifas seria prejudicial para ambas as economias e para a competitividade das exportações brasileiras.