Nova fase da Operação Compliance Zero mira publicitário ligado a Daniel Vorcaro e pode aprofundar investigações sobre o filme “Dark Horse”.
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (9) uma nova etapa da Operação Compliance Zero, focando no publicitário Thiago Miranda. A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça, busca mais evidências sobre a atuação de Miranda na contratação de jornalistas e influenciadores para defender o Banco Master e criticar o Banco Central.
Investigadores apontam que as provas coletadas na operação podem fornecer elementos cruciais para outra frente de investigação já em andamento: o filme “Dark Horse”, que retrata a vida de Jair Bolsonaro. A relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em torno da produção cinematográfica é o cerne dessa apuração.
Thiago Miranda desempenhou um papel central como intermediário na aproximação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, facilitando o patrocínio para a obra. A captação de recursos para o filme contou com o apoio direto do senador, conforme revelado anteriormente por reportagens. Conforme informação divulgada pelo The Intercept Brasil, documentos apontam que Vorcaro havia se comprometido a investir R$ 134 milhões, dos quais R$ 62 milhões teriam sido efetivamente repassados.
Miranda, o elo entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro no “Dark Horse”
Mensagens reveladas indicam que Thiago Miranda foi o responsável por conectar Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro no final de 2024. Em 8 de dezembro daquele ano, o publicitário organizou um encontro entre ambos na residência do banqueiro em Brasília. A confirmação da reunião foi feita por Miranda através de uma mensagem para Vorcaro: “Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília. Ok?”.
Pouco tempo após o horário previsto para o encontro, o deputado Mario Frias (PL-SP), produtor executivo do filme, enviou um áudio a Vorcaro expressando gratidão pelo apoio. “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”, disse Frias.
Aprofundamento das investigações e acesso a novas provas
Em 2025, Flávio Bolsonaro passou a manter contato direto com o banqueiro, embora Miranda tenha continuado a intermediar negócios. Em março, o publicitário encaminhou a Vorcaro uma captura de tela que sugeria meios de enviar recursos aos Estados Unidos, onde o filme foi produzido, com um número atribuído ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro uma tabela indicando que US$ 10,6 milhões já haviam sido transferidos de um total de US$ 23,9 milhões previstos.
Até a operação desta quinta-feira (9), as evidências envolvendo Miranda provinham de celulares de Daniel Vorcaro. Com a apreensão de seus dispositivos, a Polícia Federal terá acesso direto às comunicações de Thiago Miranda, o que poderá **ampliar significativamente o material probatório** sobre as transações e conversas referentes ao filme “Dark Horse”.
Suspeitas sobre o financiamento e a natureza do “Dark Horse”
Thiago Miranda não era formalmente investigado no caso Master até então. Sua inclusão no inquérito surgiu a partir de indícios de que ele também obtinha, por meios ilícitos, dados pessoais de desafetos de Vorcaro, de forma semelhante a outros grupos ligados ao banqueiro. As ordens de busca e apreensão autorizadas pelo ministro André Mendonça permitem vasculhar celulares, computadores e documentos, tanto físicos quanto digitais, que podem **elucidar como e por que Vorcaro decidiu financiar o filme**.
Apesar de Flávio Bolsonaro alegar que o filme é um **negócio privado**, a produção passou a ser investigada após suspeitas levantadas pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) ao Supremo Tribunal Federal (STF). As dúvidas centrais giram em torno da origem dos recursos repassados por Vorcaro, se vieram de fraudes financeiras do Banco Master e se foram integralmente aplicados na produção do “Dark Horse”.
Possíveis irregularidades e desdobramentos jurídicos
Lindbergh Farias sugere que parte dos recursos pode ter custeado a atuação de Eduardo Bolsonaro contra o ministro Alexandre de Moraes nos EUA. O ex-deputado foi condenado no STF por coação no curso do processo devido à pressão sobre o governo americano para sancionar Moraes na Lei Magnitsky. A insinuação é que Flávio Bolsonaro poderia ter contribuído para isso ao buscar recursos com Vorcaro, o que também o colocaria sob acusação.
Outra suspeita é que o filme funcione como **propaganda eleitoral irregular**, o que poderia gerar novos problemas jurídicos para Flávio. A narrativa de “patrocínio privado” não encerra o problema legal, pois recursos privados podem configurar produto de crime, lavagem de dinheiro, caixa paralelo, financiamento irregular de atividade política, custeio de atos de obstrução da Justiça, remuneração indireta de campanha internacional ou vantagem indevida a agente público. Essas são as bases do pedido de Lindbergh Farias para investigar o filme.
O caso foi encaminhado ao ministro André Mendonça no STF, que autorizou a busca contra Miranda. A Procuradoria-Geral da República (PGR) concordou com a necessidade de acesso e análise dos dados apreendidos para **melhor elucidar as condutas sob investigação**, conforme detalhado na decisão.