PF investiga atuação coordenada entre bancos para ocultar dívidas das Americanas
A Polícia Federal (PF) deflagrou a segunda fase da Operação Disclosure em 25 de junho, focando em suspeitas de fraude contábil bilionária na Americanas, descoberta em janeiro de 2023.
A investigação aponta indícios de uma possível atuação coordenada entre os bancos Itaú e Santander. O objetivo seria omitir informações cruciais sobre operações financeiras da varejista durante o processo de auditoria.
Essa descoberta é detalhada em uma decisão da juíza Giovana Calmon, da 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, obtida pelo UOL. A magistrada autorizou mandados de busca e apreensão e analisou diálogos que sugerem a conluio entre as instituições financeiras.
Mensagens revelam suposta articulação entre bancos e Americanas
A decisão judicial revela trocas de mensagens entre executivos dos bancos Itaú e Santander e o então diretor financeiro da Americanas, Fabio Abrate. Segundo a juíza, os diálogos indicam que a posição de um banco poderia influenciar diretamente a conduta do outro, em resposta a solicitações da antiga administração da varejista.
De acordo com a apuração da PF e do Ministério Público Federal (MPF), os bancos teriam emitido cartas de circularização sem registrar certas operações de risco sacado. Essas cartas são documentos essenciais enviados às auditorias para confirmar saldos e transações financeiras.
No modelo de risco sacado, a instituição financeira adianta recursos aos fornecedores da empresa, e esta, por sua vez, assume a dívida com o banco posteriormente. A omissão dessas informações, segundo os investigadores, teria sido uma estratégia para **esconder parte do endividamento da Americanas**, tanto da auditoria externa quanto do mercado financeiro.
Bancos teriam agido em conjunto para atender pedidos da varejista
A decisão judicial destaca uma conversa onde representantes da Americanas solicitam a um executivo do Itaú a remoção de informações específicas das cartas enviadas aos auditores. Em outro diálogo reproduzido no processo, um interlocutor afirma que o Santander só efetuaria a alteração se o Itaú fizesse o mesmo.
Para a juíza Giovana Calmon, o conteúdo dessas mensagens fornece **indícios de atuação coordenada entre as instituições financeiras**. O objetivo seria atender às solicitações da antiga diretoria da varejista. Contudo, a magistrada ressalta que esta fase é investigativa e não representa uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.
Itaú e Santander negam irregularidades e se dizem vítimas da fraude
Em manifestações à imprensa, o Itaú declarou que também foi **vítima da fraude contábil** praticada na Americanas, sofrendo perdas bilionárias. O banco afirmou já ter demonstrado à Justiça a regularidade da atuação de seus funcionários e que recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização.
O Santander, por sua vez, declarou ser igualmente vítima das fraudes investigadas. A instituição ressaltou que a realização de operações bancárias com a Americanas não implica participação nas irregularidades apuradas pelas autoridades. Até o momento, nem a PF nem o MPF divulgaram novas informações sobre o andamento da investigação, e a Americanas não se manifestou publicamente sobre a decisão judicial.