Dez anos de Brexit: o Reino Unido recuperou a soberania prometida ou se arrepende da decisão?
O referendo de 2016 sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia foi marcado por previsões extremas. De um lado, o apocalipse econômico; do outro, a redenção pela soberania. Passados quase sete anos da saída efetiva, a realidade se mostra mais complexa e menos definitiva do que se esperava.
A turbulência global, incluindo a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia, tornou um desafio isolar os efeitos diretos do Brexit. Analistas concordam que é quase impossível determinar com precisão o real impacto da saída da UE na economia britânica.
As transformações profundas, tanto positivas quanto negativas, que foram prometidas por ambos os lados do debate do Brexit não se materializaram em sua totalidade. Mudanças mais graduais e mistas caracterizam o cenário atual, um reflexo também da instabilidade política interna. Conforme informação divulgada por fontes jornalísticas, 57% dos britânicos acreditam hoje que deixar a UE foi um erro, indicando uma parcela significativa de eleitores insatisfeitos com os resultados do Brexit.
O Fantasma da Recessão e a Queda da Libra: O Impacto Econômico do Brexit
Os defensores do Brexit garantiram que a saída da União Europeia traria prosperidade, mas os alertas de ruína econômica por parte dos Remainers foram intensos. George Osborne, então Chanceler do Tesouro, previu um choque imediato e profundo, empurrando a economia para uma recessão. Embora a recessão em larga escala não tenha se concretizado, a libra esterlina sofreu sua maior queda em um único dia logo após o resultado do referendo, em 24 de junho de 2016. A moeda britânica ainda não recuperou seus valores pré-Brexit em relação ao dólar e ao euro.
Pesquisadores concordam que a economia britânica encolheu devido ao Brexit. Um estudo do National Bureau of Economic Research dos EUA estima que o PIB per capita do Reino Unido está entre 6% e 8% menor do que seria se o país permanecesse na UE. O investimento caiu cerca de 12% a 13%, o emprego diminuiu entre 3% e 4%, e a produtividade foi reduzida em aproximadamente 4%.
Imigração: O Controle Recuperado ou um Novo Cenário?
A imigração foi um dos pilares centrais da campanha pela saída da UE. O slogan “Ponto de Ruptura” (Breaking Point) de um cartaz do UK Independence Party ilustrava a preocupação com o aumento da migração, especialmente após as ampliações da UE em 2004 e 2007. Em 2015, a migração de outros países da UE para o Reino Unido atingiu 330.000 pessoas, um aumento drástico em relação às 6.000 de 2000.
A promessa de recuperar o controle das fronteiras e da imigração foi um fator decisivo para muitos eleitores do Brexit. Uma pesquisa no dia do referendo revelou que 33% dos eleitores do Leave acreditavam que sair da UE oferecia a melhor oportunidade para esse controle.
Contudo, a composição da população migrante mudou drasticamente. A migração de fora da UE compensou a redução de chegadas do bloco, e a imigração geral não diminuiu. No ano encerrado em março de 2023, o saldo migratório atingiu um pico histórico de 944.000 pessoas.
Burocracia e Comércio: Novos Desafios Pós-Brexit
Ao contrário das promessas de redução da burocracia de Bruxelas, o setor público do Reino Unido expandiu para lidar com os novos desafios regulatórios impostos pela saída da UE. Empresas britânicas agora enfrentam procedimentos alfandegários complexos e exigências de regras de origem ao negociar com parceiros europeus, mesmo sem tarifas.
O comércio com a UE desacelerou. De acordo com o Office for National Statistics do Reino Unido, as exportações e importações entre o Reino Unido e a UE caíram 14% e 10%, respectivamente, em 2025 em comparação com 2019. Embora as exportações de serviços britânicos para a Europa tenham crescido, a complexidade regulatória é um obstáculo.
A migração irregular, outro ponto de grande preocupação para os Brexiteers, também aumentou significativamente. O número de pessoas cruzando o Canal da Mancha em pequenas embarcações disparou de 299 em 2018 para mais de 45.000 em 2022. A perda de acesso a acordos como a Convenção de Dublin e a base de dados SIS II dificultam o controle e a identificação de indivíduos, resultando em um controle menor sobre desembarques não documentados do que antes da saída da UE.
O Futuro Incerto do Brexit
O atual primeiro-ministro, Andy Burnham, descreveu o Brexit como “prejudicial” e, embora não descarte um reengajamento futuro com a UE, não tem planos imediatos para buscar tal retorno. Os Remainers que previram um desastre econômico que não se concretizou totalmente podem não se sentir totalmente vindicados, mas os Brexiteers desiludidos com os resultados reais podem estar enfrentando uma decepção silenciosa.
A avaliação final do Brexit, portanto, permanece em aberto. A promessa de soberania foi em parte alcançada, mas a um custo econômico e regulatório ainda em processo de mensuração, em um cenário global que complica a atribuição de responsabilidades exclusivas à saída da UE.