Flávio Dino se defende de acusações sobre carro oficial do TJ-MA com vídeo antigo e critica “indústria de fake news”
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, utilizou seu perfil no Instagram para se defender de alegações sobre o uso de carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) em atividades particulares. Em uma postagem neste domingo (16), Dino apresentou um frame de um vídeo, no qual aparece ao lado de uma SUV em uma praia não identificada, para refutar as denúncias.
Segundo o ministro, o vídeo em questão é “bem antigo”, datado de maio de 2023, e foi gravado quando ele ainda não era ministro do STF. Dino ressalta que o veículo mostrado nas imagens é particular e que sua posse no STF ocorreu apenas em 2024, desvinculando o episódio de sua atual função. As informações foram divulgadas pelo próprio ministro em sua rede social.
A manifestação de Dino ocorre em meio à repercussão de uma denúncia jornalística de novembro de 2025. A reportagem, assinada pelo jornalista Luís Pablo, apontou que um veículo Toyota SW4 blindada, pertencente ao TJ-MA, estaria sendo utilizado por familiares do ministro em atividades privadas, como idas à praia. O TJ-MA teria adquirido o carro com verba pública destinada à segurança de magistrados, sem autorização formal para uso familiar.
Dino lamenta ciclo de “fake news” e ataques
Em sua publicação, Flávio Dino expressou descontentamento com o que descreveu como uma “indústria criminosa de fake news e manipulações”. Ele afirmou que esse cenário gera mais ódio, o que, por sua vez, leva a mais ataques e, consequentemente, a uma necessidade crescente de segurança, configurando um ciclo vicioso.
Denúncia e investigação sobre o uso do carro do TJ-MA
A reportagem de Luís Pablo detalhou que o veículo em questão, uma Toyota SW4 blindada, foi adquirido pelo TJ-MA com recursos de um fundo de segurança para magistrados. A denúncia alega que o carro era utilizado por parentes de Dino para fins privados, como passeios à praia em São Luís. A matéria também indicou que o TJ-MA não teria a autorização formal para que familiares de magistrados usassem o veículo.
A resposta às denúncias, segundo a reportagem, não se concentrou em esclarecer o caso, mas sim em investigar quem as divulgou. Em 10 de março de 2026, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão na residência de Luís Pablo, por ordem do ministro Alexandre de Moraes. Computadores e celulares de trabalho do jornalista foram apreendidos sob a justificativa de investigar o crime de perseguição (stalking), alegando que a divulgação das fotos do carro oficial teria abalado a tranquilidade de Dino e criado riscos à sua segurança.
Investigação mira fonte jornalística e gera repúdio
A investigação se expandiu em 11 de agosto de 2026, quando Moraes autorizou buscas contra a fonte do repórter. Ao analisar as mensagens de celulares apreendidos em março, os investigadores identificaram como informante o ex-secretário de Segurança do Maranhão, Raimundo Cutrim. A PF confiscou dispositivos eletrônicos de Cutrim em uma nova operação.
Entidades e juristas ouvidos pela reportagem consideraram essa ação uma quebra indireta do sigilo da fonte. A sucessão de operações gerou repúdio de entidades de imprensa nacionais e internacionais. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) classificou a ação como “uma grave ameaça” ao livre exercício do jornalismo no Brasil, e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou a violação da proteção à fonte.
Alexandre de Moraes defendeu a operação em sessão do plenário do STF, afirmando que o sigilo de fonte não pode acobertar crimes. A manifestação ocorreu após o presidente da Corte, Edson Fachin, expressar solidariedade a Dino e reafirmar a defesa da liberdade de imprensa.
Dino levanta sigilo e defesa contesta “stalking”
Na sexta-feira (14), sob pressão de entidades ligadas à liberdade de expressão, Flávio Dino decidiu levantar o sigilo da investigação. A medida visa demonstrar a complexidade do processo, que agora deve ser votado colegialmente no STF para gerar jurisprudência sobre casos semelhantes. Na decisão, Dino sustentou a competência do STF pela presença de autoridades com foro privilegiado.
A defesa de Cutrim manifestou preocupação com o uso do poder de polícia para expor a identidade de uma fonte jornalística, protegida pela Constituição. Juristas criticam a classificação da mera divulgação de imagens e dados como crime de perseguição (stalking), argumentando que isso inverte a lógica legal e gera um efeito inibidor sobre a liberdade de imprensa e a fiscalização de autoridades públicas.
Investigação aponta repasse financeiro e acesso a sistemas restritos
Novos elementos apresentados pela PF sugerem que Luís Pablo poderia ter sido pago para produzir as reportagens contra Dino, com menção a um pagamento de R$ 100 mil destinado ao jornalista, depositado na conta de um terceiro. Segundo a decisão, documentos indicam o envolvimento de Raimundo Cutrim no fornecimento de “suporte material e financeiro”. O jornalista nega categoricamente ter sido pago, afirmando que o valor se refere a um empréstimo privado, já quitado, para aquisição de uma propriedade rural.
A segurança institucional de Dino relatou ter identificado monitoramento de seus deslocamentos. A PF sugere que as reportagens revelaram dados específicos, como placas de veículos e nomes de agentes de segurança, indicando acesso a informações restritas e sistemas institucionais. A defesa, por outro lado, argumenta que as informações publicadas são de interesse público e foram obtidas por meio de fotos em vias públicas e documentos internos, visando fiscalizar o uso irregular de recursos públicos.
Conflito de interesses e críticas à atuação do STF
O caso tramita no STF dentro do “Inquérito das Fake News”, um instrumento cuja competência é contestada por criminalistas. Especialistas apontam um conflito de interesses preocupante, onde Dino figura como suposta vítima em uma investigação conduzida por Alexandre de Moraes, mas é ele mesmo quem relata outro inquérito contra a fonte jornalística no STF. Advogados consultados criticam a sobreposição de papéis e a aparência de parcialidade, que comprometeriam a serenidade exigida da magistratura e a percepção de justiça pela sociedade.