A disputa entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a Disney ganhou um novo capítulo com a Comissão Federal de Comunicações (FCC) antecipando a audiência para renovação das concessões de oito emissoras da rede ABC, pertencente à gigante do entretenimento.
O embate, que já se estende por meses, envolve investigações sobre programas de diversidade da empresa, críticas diretas do governo ao conteúdo exibido pela emissora e acusações da Disney de que a administração Trump tenta pressionar a imprensa e restringir a liberdade de expressão.
A FCC justificou a medida, incomum e sem precedentes há mais de 50 anos, alegando a necessidade de conduzir uma investigação sobre suposta discriminação em programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) da Disney e ABC. A agência federal também abriu um processo para avaliar a isenção do talk show “The View”.
A Disney, por sua vez, apresentou um documento acusando o processo de ter motivações políticas. A empresa argumenta que a ação é uma retaliação e um aviso para outras empresas de mídia do país. As informações são baseadas em declarações da própria FCC e reportagens do jornal Los Angeles Times e da CNN.
Investigação sobre programas de Diversidade e Inclusão
A Comissão Federal de Comunicações (FCC) antecipou o processo de renovação das concessões de oito emissoras da rede ABC, controlada pela Disney. A decisão foi tomada em abril deste ano, após a abertura de uma investigação no ano passado para apurar se a Disney e a ABC cometeram discriminação através de seus programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI).
Conforme comunicado da agência federal, as normas da FCC permitem a exigência de renovação antecipada quando a comissão considera o pedido essencial para a condução adequada de uma investigação. A FCC declarou que tal medida possibilita a continuidade da investigação em curso, ao mesmo tempo em que assegura que a emissora está cumprindo suas obrigações de interesse público.
“The View” sob escrutínio e alegações de pressão política
Além da investigação sobre os programas de DEI, a FCC iniciou um processo separado para analisar se o talk show “The View”, da ABC, deve manter a isenção concedida em 2002. Essa isenção desobriga o programa de oferecer o mesmo tempo no ar a candidatos de diferentes partidos políticos.
No final de julho, a Disney apresentou um documento ao órgão regulador, alegando que a antecipação da análise de suas concessões teria motivações políticas. Os advogados da empresa escreveram que “a retaliação contra a ABC é um sinal para todas as empresas de mídia do país: alinhem-se à visão do governo [Trump] sobre como deve ser a cobertura jornalística ou paguem o preço”.
Histórico de conflitos entre Trump e a Disney
O embate entre Donald Trump e a Disney não é recente. Em setembro do ano passado, a empresa suspendeu temporariamente o programa de Jimmy Kimmel após o apresentador sugerir que o suspeito de um assassinato era apoiador de Trump e acusar o movimento MAGA (Make America Great Again) de politizar o caso.
Antes da suspensão, o presidente da FCC, Brendan Carr, sugeriu que as concessões da ABC poderiam ser revogadas se a Disney não punisse o apresentador. Posteriormente, em abril deste ano, Trump e a primeira-dama, Melania Trump, pediram a demissão de Kimmel por uma piada feita sobre ela.
Mais recentemente, em agosto, Brendan Carr criticou a ABC por não transmitir um discurso de Trump sobre suposta interferência da China em eleições americanas. Carr afirmou que a decisão poderia influenciar a revisão das concessões da rede, e Trump, em seu discurso, criticou a emissora e a NBC por não terem transmitido seu pronunciamento, sugerindo que a “fraude” eleitoral deveria resultar na revogação de suas concessões.
Reações e possíveis ações legais
A Disney está cogitando entrar com uma ação judicial baseada na Primeira Emenda da Constituição americana, que protege a liberdade de expressão, devido à que a empresa chama de “campanha de pressão do governo Trump”.
Durante o período de consultas públicas sobre o caso, a FCC recebeu manifestações tanto a favor quanto contra a renovação das concessões da ABC. Daniel Suhr, presidente do grupo conservador Centro para os Direitos Americanos, argumentou que os direitos da ABC não têm primazia sobre o “direito dos telespectadores das emissoras da ABC”, e que a FCC deve rejeitar a tentativa da Disney de evitar um escrutínio rigoroso.
Por outro lado, uma coalizão de grupos progressistas, incluindo a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), manifestou-se contra o processo antecipado, alertando que “todos os nossos direitos correm perigo quando se permite que a FCC censure comediantes, jornalistas e críticos”.