O Marechal Rondon, um gigante da história brasileira, teve sua visão de “integrar para não entregar” e o desejo de ver os povos indígenas como “irmãos” muitas vezes distorcidos e esquecidos. Sua jornada épica, marcada por feitos geográficos e um profundo respeito pelos nativos, merece ser redescoberta.
Em 27 de fevereiro de 1914, uma expedição ousada partiu do noroeste do Mato Grosso. Liderada pelo coronel Cândido Rondon e com a presença ilustre do ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, a missão era desbravar o misterioso Rio da Dúvida, um curso d’água desconhecido e perigoso. A empreitada, que durou dois meses e custou vidas, exemplifica o espírito desbravador de Rondon.
A expedição, apesar dos perigos e conflitos, como a divergência entre Rondon e Roosevelt sobre como lidar com um assassino dentro do grupo, resultou no mapeamento de cerca de 760 quilômetros de um rio até então desconhecido, um feito geográfico notável para a época. Este evento é apenas um vislumbre do legado multifacetado do Marechal Rondon, um homem cuja trajetória é fundamental para entender o Brasil.
A história de Rondon, contada em detalhes por fontes como a biografia de Larry Rohter, revela um homem moldado pelo sertão, pela disciplina militar e pela filosofia positivista. Sua vida foi dedicada à expansão das linhas telegráficas e à proteção dos povos indígenas, ideais que ele buscou conciliar com a visão de um Brasil integrado e progressista. A aventura no Rio da Dúvida, que culminou no rebatismo do rio para Rio Roosevelt, destaca a diplomacia e a força de caráter de Rondon, que insistiu em um tratamento justo para o assassino, contrastando com a visão punitiva de Roosevelt.
O Menino Órfão que se Tornou Engenheiro e Militar
Nascido em maio de 1865 no Mato Grosso, Cândido Rondon teve uma infância marcada pela perda dos pais e pela criação por um tio-avô. Sem registro civil, sua origem humilde não o impediu de buscar o conhecimento. Aos dezesseis anos, ingressou no Exército, um caminho que o levou à Escola Militar do Rio de Janeiro, onde a matemática e o positivismo de Auguste Comte o transformaram.
Convertido ao positivismo, Rondon participou ativamente da Proclamação da República em 1889. Sua carreira militar o dedicou à árdua tarefa de construir linhas telegráficas, conectando o oeste do país ao litoral. Esse trabalho o manteve longe de sua família por décadas, mas consolidou sua reputação como um engenheiro militar exemplar.
“Morrer, se preciso for, matar, nunca”: O Lema que Definiu uma Vida
Em suas missões pelo sertão, Rondon fixou o lema que o tornaria célebre: “Morrer, se preciso for, matar, nunca”. Essa filosofia foi posta à prova em 1908, quando foi flechado por guerreiros Nambiquaras. Em vez de retaliar, Rondon demonstrou compaixão, oferecendo presentes aos mesmos que o atacaram, um gesto que, meses depois, levou ao contato pacífico com a tribo.
Por quarenta anos de sertão, Rondon jamais matou um indígena. Sua postura ética e humanitária foi reconhecida internacionalmente, a ponto de Albert Einstein indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 1925. Ele acreditava na **assimilação gradual** dos povos indígenas à sociedade brasileira, mas sempre com respeito e sem coerção.
O Serviço de Proteção aos Índios e a Visão de “Irmãos”
Em 1910, Rondon assumiu a direção do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), impondo dezessete condições, incluindo a garantia da posse das terras indígenas. Sua visão era de incorporar os povos originários à civilização ocidental como “irmãos”, conquistando sua afeição e confiança para que a integração ocorresse espontaneamente.
Contudo, o SPI enfrentou desafios como invasões de terras e epidemias, e a corrupção acabou por levar à sua extinção em 1967. A visão de Rondon, de um índio como irmão, ficou mais no papel, e o próprio marechal, por volta de 1940, já expressava dúvidas sobre o projeto.
Legado e Controvérsias na Contemporaneidade
O legado de Rondon é complexo e disputado. A ditadura militar o usou como patrono do projeto “integrar para não entregar”, enquanto a esquerda o reivindica pela causa indígena. A Constituição de 1988, no entanto, consagrou o direito dos povos indígenas de permanecerem como são, em terras demarcadas, um contraste com a visão de **assimilação gradual** de Rondon.
O revisionismo acadêmico o criticou, mas especialistas defendem que Rondon agiu eticamente dentro do contexto de seu tempo. Seu lema e sua dedicação à causa indígena, apesar das complexidades de sua visão sobre a **assimilação gradual**, continuam a inspirar o debate sobre o futuro dos povos originários no Brasil, um país que ele tanto ajudou a mapear e a compreender.