Brasil planeja ser líder mundial em terras raras, mas metas dependem de descobertas geológicas ainda incertas e dados conflitantes levantam dúvidas sobre o potencial real.
O Plano Nacional de Mineração 2050 (PNM 2050) do governo brasileiro ambiciona transformar o país em um dos principais produtores globais de minerais críticos e terras raras nas próximas décadas. A estratégia, anunciada com otimismo pelo Ministério de Minas e Energia, visa impulsionar o desenvolvimento econômico, reduzir a dependência de importações e fortalecer a soberania nacional em um cenário internacional cada vez mais competitivo.
No entanto, a concretização dessas metas ambiciosas esbarra em um obstáculo significativo: a **falta de conhecimento aprofundado sobre as reais reservas minerais do subsolo brasileiro**. As projeções do governo baseiam-se em estimativas internacionais que já sofreram revisões e divergem entre os próprios órgãos oficiais brasileiros, levantando questionamentos sobre a solidez dos dados que sustentam o plano.
A produção atual de terras raras no Brasil também se mostra ínfima quando comparada às projeções e à produção mundial. Especialistas apontam que a distância entre as metas e a realidade reflete um problema estrutural de **investimento insuficiente em pesquisa geológica** ao longo de décadas, o que impede um conhecimento preciso do potencial mineral do país. Conforme informação divulgada pelo Ipea com dados da Agência Nacional de Mineraçāo (ANM), em 2024 o país produziu apenas 20 toneladas de terras raras, enquanto a produção global atingiu 390 mil toneladas.
Estimativas de Reservas em Xeque: Dados Divergentes e Revisões Internacionais
O PNM 2050 menciona uma reserva estimada de 21 milhões de toneladas métricas de terras raras, baseando-se em dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Contudo, o próprio USGS revisou essa estimativa pela metade em 2024, apontando para 11 milhões de toneladas métricas. Essa divergência já sinaliza a **incerteza sobre o volume real das reservas brasileiras**.
Internamente, os dados também não são unânimes. O Sumário Mineral de 2025 da Agência Nacional de Mineração (ANM) apresenta uma estimativa de 11,4 milhões de toneladas, o que corresponderia a 13,9% das reservas mundiais. Essa inconsistência dificulta a formulação de políticas públicas e atrai a atenção de especialistas como o geólogo John Forman, que destaca a necessidade de pesquisas mais aprofundadas.
Forman ressalta que o principal gargalo não é a falta de potencial, mas a **escassez de informações precisas sobre a localização, quantidade e viabilidade econômica** da exploração desses minerais. Ele define as metas como “wishful thinking”, ou “pensamento desejoso”, por refletirem mais um anseio do que uma realidade tecnicamente comprovada no momento.
A Origem das Estimativas: Pesquisas Antigas e Foco no Tório
As estimativas de reservas de terras raras no Brasil têm uma origem peculiar. Elas se baseiam, em grande parte, em pesquisas geológicas realizadas na década de 1950, que tinham como foco principal a prospecção de tório, um mineral com potencial para uso nuclear. Na época, o tório era obtido a partir da monazita, um mineral composto por terras raras leves.
“Naquela época o foco era exclusivamente no potencial nuclear, e ninguém prestava atenção para as terras raras que compunham a monazita”, explica Forman. As pesquisas eram voltadas para as chamadas areias monazíticas. Atualmente, a exploração de terras raras no país, como no caso da jazida em Serra Verde/Goiás, utiliza a argila iônica, demonstrando uma evolução na tecnologia de extração.
Essa base de dados antiga, sem foco específico em terras raras, contribui para a **incerteza sobre a real dimensão das reservas**. A falta de programas de mapeamento geológico com prioridade política de longo prazo também agrava o cenário, com metas de detalhamento cartográfico raramente alcançadas.
Recursos vs. Reservas: A Distinção Crucial para o Potencial Mineral
Um ponto fundamental na discussão sobre a mineração no Brasil, segundo especialistas, é a distinção entre **recursos minerais e reservas minerais**. Enquanto recursos representam apenas a ocorrência geológica de um minério, reservas referem-se a depósitos com pesquisas detalhadas que comprovam volume, teor, viabilidade técnica e econômica para exploração.
Forman alerta que muitas das estimativas divulgadas sobre as riquezas minerais brasileiras, especialmente as terras raras, na verdade se referem a recursos geológicos ainda não confirmados. “O Brasil praticamente não possui reservas medidas de terras raras. O que temos são recursos geológicos que ainda precisam ser pesquisados”, afirma o geólogo.
O projeto Serra Verde, em Goiás, é apontado como uma exceção, por possuir reservas efetivamente medidas e avaliadas. Contudo, a maior parte dos cerca de 20 projetos de pesquisa de terras raras no Brasil ainda se encontra em estágios iniciais de exploração ou pesquisa, o que reforça a necessidade de **investimento contínuo em geologia e pesquisa mineral** para transformar potencial em realidade.
Desafios Estruturais: Burocracia, Licenciamento e Conflitos de Uso do Solo
Mesmo quando um depósito mineral é identificado, o processo para transformá-lo em uma mina comercial é longo e complexo, podendo levar cerca de dez anos. Esse período envolve levantamentos geológicos detalhados, estudos metalúrgicos, avaliações econômicas e, crucialmente, o licenciamento ambiental.
A advogada Patrícia Arantes, diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira, destaca que o plano acerta ao tratar a mineração como estratégia de Estado, mas falha em detalhar como serão enfrentadas as **questões estruturais do ambiente regulatório**. A incerteza jurídica em torno do licenciamento ambiental, com disputas judiciais em andamento, afugenta investidores que necessitam de previsibilidade para projetos de longo prazo.
Além disso, a expansão da mineração muitas vezes **conflita com o agronegócio**, que já ocupa áreas consideradas promissoras para minerais estratégicos. Arantes enfatiza a necessidade de políticas públicas que garantam segurança jurídica para ambas as atividades, reconhecendo sua complementaridade e não exclusão. Regiões como o Cerrado goiano e o Vale do São Francisco exemplificam essa convivência, onde propriedades rurais e projetos de exploração de terras raras dividem espaço, como em Minaçu (GO).
Para que o Brasil alcance as metas ambiciosas do PNM 2050, será fundamental um **investimento robusto e contínuo em mapeamento geológico, pesquisa mineral e formação de especialistas**, aliado a um ambiente regulatório mais previsível e ágil. Sem essas medidas, o país corre o risco de continuar anunciando grandes riquezas minerais sem, de fato, conhecer e explorar seu potencial de forma efetiva e sustentável.