Plano de Mineração de Lula Apostando em Terras Raras: Um Sonho Distante Sem Pesquisa Geolológica Profunda no Brasil?

Resumo

Plano de Mineração de Lula para 2050: Riquezas Ocultas ou Estimativas Infladas de Terras Raras?

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o Plano Nacional de Mineração 2050 (PNM 2050), com a ambição de posicionar o Brasil como líder mundial na produção de minerais críticos e terras raras. Contudo, as projeções otimistas do plano parecem se basear em dados internacionais que já sofreram revisões e divergências internas, levantando dúvidas sobre a real capacidade de o país atingir suas metas.

A estratégia governamental visa impulsionar o setor mineral, aumentar sua participação no PIB e gerar milhares de empregos. No entanto, a disparidade entre as metas e a produção atual, juntamente com a falta de pesquisas geológicas específicas, aponta para um desafio estrutural significativo: o Brasil ainda conhece muito pouco sobre o potencial de seu próprio subsolo.

Especialistas alertam que a base das estimativas de reservas de terras raras, muitas vezes citadas em relatórios oficiais, remonta a estudos geológicos da década de 1950, focados em outros minerais. Conforme informação divulgada pelo Ministério de Minas e Energia e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Brasil possuiria cerca de 21 milhões de toneladas métricas de terras raras, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). No entanto, o próprio USGS revisou essa estimativa para baixo, para 11 milhões de toneladas métricas neste ano. Essa inconsistência de dados, aliada à produção irrisória de apenas 20 toneladas em 2024, levanta sérias questões sobre a viabilidade do plano.

Terras Raras: O Que São e Por Que São Cruciais para o Futuro?

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de tecnologias avançadas, como smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. O Brasil, segundo o Plano Nacional de Mineração 2050, almeja se tornar um dos principais produtores globais desses minerais estratégicos. O plano projeta elevar a participação do setor mineral no PIB de 3,3% para 4,8% até 2050, criando 800 mil empregos diretos e elevando o total para 2,8 milhões de postos de trabalho.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou o potencial brasileiro, afirmando que o PNM 2050 “mostra o caminho para que nossa riqueza sirva à modernização da economia nacional, transformando esse potencial em desenvolvimento, tecnologia, emprego e renda”. No entanto, o próprio presidente Lula admitiu recentemente que não conhecia as “famosas terras raras”, demonstrando a lacuna de conhecimento mesmo dentro do alto escalão do governo.

A Realidade das Reservas Brasileiras: Potencial vs. Evidência

Especialistas como o geólogo John Forman, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), apontam que o principal obstáculo não é a falta de potencial mineral, mas a ausência de informações suficientes para comprová-lo. “O Brasil pode ter muito mais riqueza mineral do que conhecemos hoje. O problema é que não sabemos onde ela está, quanto existe e se ela pode ser explorada economicamente”, afirma Forman.

Forman descreve as metas do plano como “wishful thinking” (pensamento desejoso), pois refletem mais um anseio do que uma projeção baseada em dados concretos. Ele explica que as estimativas de terras raras no Brasil derivam de pesquisas antigas focadas em tório, um mineral encontrado em jazidas de monazita, que também contém terras raras leves. “Naquela época o foco era exclusivamente no potencial nuclear, e ninguém prestava atenção para as terras raras que compunham a monazita”, esclarece o geólogo.

A distinção crucial entre recursos minerais e reservas minerais é frequentemente negligenciada. Recursos referem-se ao potencial geológico, enquanto reservas exigem pesquisas detalhadas que comprovem volume, teor, viabilidade técnica e econômica. “O governo costuma afirmar que o Brasil possui grandes reservas minerais. Tecnicamente, em muitos casos, o que existe são recursos geológicos ainda não suficientemente pesquisados”, alerta Forman.

Investimento em Mapeamento e Previsibilidade Regulatória: Caminhos para o Futuro

Para que o Brasil efetivamente explore seu potencial mineral, são necessários investimentos contínuos em mapeamento geológico, pesquisa mineral e formação de especialistas. A falta de prioridade política para programas de mapeamento geológico de longo prazo, como a conclusão do mapa geológico nacional que levou mais de quarenta anos para ser finalizado, agrava o cenário.

Além da pesquisa geológica, a burocracia e a demora nos processos de licenciamento ambiental representam um gargalo significativo. Forman estima que o caminho da descoberta até o início da produção mineira pode levar cerca de dez anos, um período que desestimula investidores. A advogada Patrícia Arantes, diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira, reforça que o plano “não explica como serão enfrentadas questões estruturais do ambiente regulatório, desde o licenciamento ambiental até as regras para atração de capital estrangeiro”, gerando incerteza para investimentos bilionários.

A disputa por espaço com o agronegócio em áreas promissoras também é um ponto de atenção. Arantes defende a construção de políticas públicas que garantam segurança jurídica para ambas as atividades, consideradas complementares. A falta de interlocução entre os ministérios da Agricultura e de Minas e Energia pode comprometer a sinergia necessária para o desenvolvimento sustentável dessas áreas, como o Cerrado goiano e o Vale do São Francisco.

O Desafio de Transformar Potencial em Produção Efetiva

A exploração de terras raras no Brasil esbarra em desafios que vão desde a falta de conhecimento geológico a um ambiente regulatório complexo e demorado. O projeto Serra Verde, em Goiás, é apontado como uma exceção por possuir reservas efetivamente medidas e avaliadas, contrastando com a maioria dos outros cerca de 20 projetos de pesquisa de terras raras no país, que ainda se encontram em estágios iniciais de exploração de recursos geológicos.

Para Forman, o país precisa oferecer “previsibilidade contratual, segurança jurídica fundiária e uma arquitetura regulatória que permita ao investidor e ao produtor rural saberem o que esperar do mesmo território”. Sem essas garantias e um investimento robusto e contínuo em pesquisa e desenvolvimento, as ambiciosas metas do Plano Nacional de Mineração 2050 correm o risco de permanecerem no campo das boas intenções, sem se traduzirem em riqueza mineral efetivamente explorada e beneficiada para o Brasil.

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