A dispersão da terceira via presidencial de 2022: um cenário político em transformação
Os candidatos que em 2022 se apresentaram como a esperança de uma alternativa aos então polarizados Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro tiveram destinos diversos. Quatro anos depois, o que se observa é uma clara dispersão desse grupo, com alguns migrando para o governo federal, outros se dedicando à oposição em âmbitos regionais e até mesmo aderindo a gestos de apoio ao atual presidente.
A senadora Soraya Thronicke (PSB), que concorreu em 2022 pelo Podemos, exemplifica essa reviravolta. Critica ferrenha de ambos os lados na época, ela recentemente foi vista realizando o gesto do “L” em um ato político ao lado de correligionários de centro-esquerda. Em suas redes sociais, Thronicke justificou a mudança de postura, falando sobre conhecer “o lado do ódio, do desprezo e do horror” na política e, em seguida, a “política como ela deve ser feita: com amor”.
A senadora celebrou a retomada de obras de uma fábrica de fertilizantes em Mato Grosso do Sul, ao lado do presidente Lula, em uma publicação no dia 25 de junho. Eleita em 2018 com apoio bolsonarista e buscando a reeleição com um aceno ao governo atual, Thronicke trocou recentemente o Podemos pelo PSB, sinalizando uma nova alinhavada política. Essa mudança representa uma guinada de 180 graus em relação ao discurso de 2022. Os dados sobre essa movimentação foram divulgados em diversas plataformas, refletindo o dinamismo do cenário político brasileiro.
Simone Tebet: de terceira via a ministra e candidata com apoio petista
Simone Tebet, que ficou em terceiro lugar na disputa presidencial de 2022 e era vista como um nome forte da centro-direita, também embarcou em um novo caminho. Ela assumiu o Ministério do Planejamento e Orçamento no governo Lula, atuando com discrição por mais de três anos. Sua saída do ministério se deu para concorrer ao Senado por São Paulo, em uma chapa apoiada pelo PT.
Tebet, que já foi filiada ao MDB, recebeu a missão de conferir um tom mais centrista à chapa petista no estado. Em seu perfil no Instagram, a senadora frequentemente compartilha momentos de campanha ao lado de figuras da esquerda, divulgando ações e programas do governo federal. Essa aproximação com o campo de Lula, que começou com o gesto do “L” no segundo turno de 2022, consolidou-se em sua atual trajetória política.
Ciro Gomes: oposição regional com aliança surpreendente no Ceará
Ciro Gomes, que em 2022 disputou a presidência pelo PDT e obteve o quarto lugar, optou por seguir na oposição ao governo Lula, mas em um plano regional. Ele é o candidato da oposição à reeleição do governador Elmano de Freitas (PT) no Ceará, seu berço político. Ciro busca retornar ao governo do estado pelo PSDB, em uma frente que conta com o apoio do PL.
Essa aliança no Ceará gerou repercussão, culminando em desdobramentos no PL, como a saída de Michelle Bolsonaro da liderança do PL Mulher. A crise se aprofundou após Michelle divulgar um vídeo crítico ao senador Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência pelo partido. A dinâmica no Ceará demonstra como as estratégias políticas regionais podem influenciar o cenário nacional.
Outros nomes da terceira via: caminhos diversos e ausência em 2024
Felipe D’Ávila (Novo), que ficou em sexto lugar na disputa presidencial de 2022, chegou a ser cogitado para o governo de São Paulo, mas não confirmou a candidatura. Atualmente, ele atua como analista político e colunista, mantendo-se afastado de cargos eletivos neste ciclo. Outros candidatos de menor expressão, os chamados “nanicos”, também não devem reeditar suas candidaturas presidenciais em 2026.
Padre Kelmon, figura controversa em 2022, anunciou pré-candidatura a deputado federal por São Paulo em 2026, agora pelo PL. Ele tem intensificado sua atuação política em municípios paulistas e eventos conservadores, compartilhando material de figuras como Flávio Bolsonaro. Candidatos como Léo Péricles (UP), Sofia Manzano (PCB), Vera Lúcia (PSTU) e Constituinte Eymael (DC) tiveram seus nomes substituídos por outros em seus partidos e também não devem disputar a presidência em 2026.
O cenário para 2026: Lula e Bolsonaro na disputa, terceira via sem decolar
Em 2022, nenhum dos nomes da terceira via conseguiu empolgar o eleitorado de forma expressiva. A menos de 90 dias do primeiro turno das eleições deste ano, os nomes que representam um campo político alternativo entre Lula e as candidaturas conservadoras, como a de Flávio Bolsonaro, também não mostram sinais de decolagem. Uma pesquisa recente do instituto Gerp, divulgada em 8 de julho, aponta um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em um cenário estimulado de primeiro turno.
Nos cenários sem Flávio Bolsonaro, Lula empata tecnicamente com Michelle Bolsonaro e lidera simulações contra outros nomes do PL, como Rogério Marinho e Astronauta Marcos Pontes. A pesquisa Gerp ouviu 2.000 pessoas entre os dias 3 e 7 de julho de 2026, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Os dados indicam que, até o momento, a polarização entre os dois principais blocos políticos se mantém como o principal fator definidor do cenário eleitoral, com a terceira via ainda buscando seu espaço.