Brasil investe em ensino superior, mas falha em formar; veja os dados alarmantes
Dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) pintam um quadro preocupante sobre o ensino superior brasileiro. Apesar de investimentos que se aproximam dos padrões internacionais, o país enfrenta um desafio crônico: a baixa taxa de conclusão e a alta evasão de estudantes. O sistema educacional brasileiro, que ampliou o acesso às universidades, parece ter dificuldades em garantir que os alunos concluam seus cursos com êxito.
O cenário é de um paradoxo: o Brasil destina cerca de 4,4% do seu Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, um percentual similar ao de nações da OCDE. O gasto anual por estudante também se alinha à média internacional, em torno de US$ 15.600. Contudo, esses recursos não se traduzem em resultados satisfatórios na formação acadêmica, evidenciando uma falha na qualidade e na eficiência da aplicação dos investimentos.
Essa discrepância entre investimento e resultado levanta questionamentos sobre a estrutura e a gestão do ensino superior no país. A expansão recente, impulsionada majoritariamente pelo setor privado e pela educação a distância (EaD), parece ter contribuído para o aumento da evasão. Conforme aponta o relatório Education at a Glance 2025, o Brasil precisa urgentemente reavaliar suas estratégias para converter o acesso ampliado em formação efetiva e de qualidade.
Evasão: Um Fantasma no Ensino Superior Brasileiro
Um dos indicadores mais alarmantes revelados pela OCDE é a persistente taxa de evasão. Cerca de 25% dos estudantes brasileiros desistem da graduação ainda no primeiro ano, um índice quase o dobro da média de 13% observada nos países da OCDE. Essa realidade impacta diretamente a proporção de jovens com diploma superior no país.
A consequência direta dessa alta evasão é que apenas 24% dos brasileiros entre 25 e 34 anos possuem diploma de ensino superior. Este número é menos da metade da média de 49% registrada nos países da OCDE, demonstrando uma lacuna significativa na formação de capital humano qualificado no Brasil.
O Papel do Ensino Privado e da Educação a Distância
A expansão do ensino superior no Brasil nas últimas décadas foi predominantemente via setor privado e modalidade a distância (EaD). Atualmente, 88% das instituições de ensino superior são privadas, concentrando cerca de 78% das matrículas, o que representa 9,4 milhões de estudantes, de acordo com o Censo da Educação Superior de 2024. Essa expansão acelerada trouxe consigo desafios.
O EaD, embora tenha sido crucial para ampliar o acesso, tornou-se um epicentro da evasão, com taxas que ultrapassam os 40%. Paralelamente, a relação aluno-professor nas instituições privadas é drasticamente maior, chegando a 62 alunos por docente, em contraste com os cerca de 10 alunos por professor nas instituições públicas. A média da OCDE é de 18 alunos por professor, evidenciando a sobrecarga no setor privado brasileiro.
Qualidade e Eficiência: Os Verdadeiros Desafios
A disparidade na relação aluno-professor não é meramente estatística, mas reflete diferentes modelos pedagógicos e a fragilidade da mediação educacional, especialmente nos primeiros anos de formação, período crítico para a permanência estudantil. Mesmo no setor público, com uma relação mais favorável, a qualidade acadêmica depende de um acompanhamento e suporte pedagógico robustos.
O novo marco regulatório do ensino a distância, estabelecido pelo Decreto 12.456/2025, surge como uma tentativa de endereçar esses problemas. No entanto, sua efetividade ainda é incerta, com regras em fase de implementação e falta de uma metodologia de avaliação clara. O ceticismo já se instala antes mesmo da medição de seus efeitos.
O Impacto na Competitividade e no Futuro do Brasil
O cenário atual compromete a capacidade do Brasil de formar profissionais inovadores e produtivos, essenciais para o mercado de trabalho, o empreendedorismo e o desenvolvimento tecnológico. Esse descompasso entre o envelhecimento da população e a falta de avanço na capacidade produtiva impõe limites ao crescimento econômico e à inserção competitiva do país no cenário global.
O desafio para o Brasil não é mais apenas ampliar o acesso ao ensino superior, mas garantir que essa expansão se traduza em formação de qualidade. Sem essa garantia, o país continuará a investir significativamente, mas colhendo poucos resultados, adiando um futuro de desenvolvimento e prosperidade.