O Papa Francisco, em sua visita apostólica à França, encontra um cenário peculiar em Lourdes, onde os mosaicos do padre Marko Ivan Rupnik foram cobertos. Paralelamente, o Santuário Nacional de Aparecida celebra a inauguração de novas obras, gerando um contraste marcante na forma como a arte de Rupnik está sendo tratada em locais de peregrinação mundial.
Enquanto o Papa visita Lourdes, os mosaicos do padre Marko Ivan Rupnik, que adornavam o santuário, estão agora escondidos sob painéis simples. Esta decisão, tomada pelo bispo de Tarbes e Lourdes, Jean-Marc Micas, com o encorajamento do Papa, visa distanciar a Igreja das obras de um sacerdote acusado de abuso. A cobertura, que começou em março de 2025, não será removida após a visita papal, indicando uma postura definitiva.
A situação em Lourdes contrasta fortemente com a de Aparecida, no Brasil, onde o Santuário Nacional tem avançado com a instalação de novos mosaicos do Centro Aletti, fundado por Rupnik. As fachadas Oeste, Sul e Leste foram concluídas em fases recentes, mesmo após a divulgação das denúncias contra o padre esloveno. A assessoria de imprensa do Santuário Nacional não respondeu a questionamentos sobre a continuidade do projeto e a participação de Rupnik.
A arte de Rupnik, que por décadas foi celebrada como um expoente da arte sacra contemporânea, está presente em diversos locais de referência católica, incluindo o Vaticano, San Giovanni Rotondo e Fátima. No entanto, desde o final de 2022, o padre enfrenta investigações por abusos sexuais, psicológicos e religiosos cometidos contra dezenas de mulheres, principalmente na Eslovênia.
O caso de Rupnik tem sido complexo, com expulsão da Companhia de Jesus em 2023 e até mesmo excomunhão temporária. Apesar das fortes evidências, há incertezas sobre o desfecho do processo canônico, com rumores de absolvição que foram desmentidos pelo Vaticano. Especialistas apontam que, mesmo com a remoção de prazos prescricionais, brechas podem impedir uma condenação.
### O Dilema de Aparecida: Arte e Abuso
O maior projeto do Centro Aletti encontra-se no Brasil, com as fachadas do Santuário Nacional de Aparecida. A conclusão das obras ocorreu em fases, com as fachadas Norte em 2022, Sul em 2024 e Leste em 2025. A divulgação dos abusos não impediu a continuidade do trabalho, levantando questões sobre a decisão da administração.
### A Arte de Rupnik: Estilo Problemático
Apesar de se tentar separar o artista da obra, o estilo de Rupnik é questionado. Uma ex-noviça italiana descreveu uma sensação de invasão diante dos mosaicos, citando o uso excessivo de dourado, cores fortes, o tamanho das figuras e a inquietude causada por seus olhos pretos e sem fundo. Essa percepção sugere um problema intrínseco na própria arte.
### Separação entre Artista e Obra: Um Equilíbrio Delicado
A discussão sobre separar o artista da obra é complexa, especialmente quando muitos colaboradores não têm ligação com os abusos. Contudo, a arte executada segue o estilo concebido por Rupnik. A sugestão de ouvir as vítimas e a possibilidade de manter as obras com avisos sobre as acusações são consideradas, ponderando a motivação dos encomendadores e a contribuição financeira dos fiéis.
### O Futuro da Arte Sacra e as Obras de Rupnik
A arte de Rupnik, com seus olhos característicos, é descrita como a expressão de uma “boneca sem vida”. Essa análise levanta sérias preocupações para a encomenda de arte sacra, mesmo que o processo canônico não resulte em condenação. O Centro Aletti pode continuar produzindo em outros estilos, mas o destino das obras já existentes, como as de Aparecida e Lourdes, permanece em aberto, com a opção de cobri-las, como em Lourdes, sendo uma das soluções.
A decisão do Papa Francisco em Lourdes de cobrir os mosaicos de Rupnik, enquanto Aparecida segue com a inauguração de novas obras, evidencia a complexidade em lidar com a arte de um artista acusado de abuso, gerando um debate sobre como a Igreja deve se posicionar diante de tais situações e preservar a integridade de seus espaços sagrados. Conforme informação divulgada pelo Vatican News, o Papa Francisco tem buscado se distanciar da obra de Rupnik, o que se reflete nas ações tomadas em Lourdes.