Anúncio de Canetas Emagrecedoras pelo SUS Gera Expectativa e Ceticismo em Meio a Incertezas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a disponibilização de canetas emagrecedoras pela rede pública de saúde, uma promessa que surgiu na reta final da campanha eleitoral. A iniciativa, no entanto, ainda não consta no plano oficial de governo e carece de definições essenciais, levantando questionamentos sobre sua viabilidade e implementação.
Apesar do entusiasmo com que o anúncio foi feito, o governo ainda não possui informações concretas sobre o custo total da medida, quem será o público beneficiado e em que prazo o tratamento estará disponível para a população. A falta desses detalhes tem gerado apreensão entre especialistas e entidades de saúde.
Até que esses medicamentos possam ser incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS), eles precisam passar por um rigoroso processo de avaliação. Este processo envolve a análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e uma decisão final do Ministério da Saúde, conforme divulgado pela reportagem.
Caminho Complexo para Incorporação no SUS
A incorporação de novas tecnologias no SUS é um processo que exige tempo e análise detalhada. Após a submissão de um pedido, a Conitec tem um prazo de até 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 90 dias, para concluir sua avaliação. Somente após essa etapa, e com a definição de protocolos e fontes de financiamento, a medida poderá ser implementada.
Apesar de comemorada por aliados, a promessa das canetas emagrecedoras contrasta com declarações anteriores do próprio presidente Lula. Em março deste ano, ele ressaltou que medicamentos para emagrecimento não deveriam ser vistos como um “prêmio para quem é relaxado”, enfatizando a importância de hábitos saudáveis e atividade física.
“As pessoas têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco”, declarou Lula na ocasião, defendendo um estilo de vida mais ativo para o controle do peso corporal.
Entidades Questionam o Timing e a Falta de Detalhes
A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) expressaram uma mistura de esperança e ceticismo diante do anúncio. Essas entidades cobram há anos do Ministério da Saúde e da Anvisa medidas eficazes para o tratamento da obesidade, que atualmente conta com poucas opções no SUS, como a cirurgia bariátrica, sujeita a longas filas.
Alexandre Hohl, diretor da Abeso, questiona o momento da promessa, especialmente considerando que, no passado, o governo alegou falta de recursos. “No passado, o governo foi categórico dizendo que não tinha dinheiro. E agora, 15 dias antes da eleição, vem uma medida dessa dizendo que vão liberar”, afirmou.
Hohl também destacou a ausência de informações cruciais, como o cronograma de liberação, o tipo de medicamento a ser utilizado, os critérios de elegibilidade e a abrangência do programa. Ele ressalta que qualquer iniciativa desse porte levará meses para se concretizar, pois ainda não há sequer publicação no Diário Oficial da União.
Retomada de Proposta Rejeitada e Projeto Experimental em Andamento
A iniciativa do governo retoma discussões iniciadas no Ministério da Saúde no ano passado sobre medicamentos que imitam a ação do GLP-1, hormônio crucial no controle da glicose, fome e saciedade. Esses medicamentos, conhecidos como canetas emagrecedoras, incluem substâncias como a semaglutida.
Em agosto de 2025, a Conitec chegou a analisar um pedido para incorporar a semaglutida ao SUS para pacientes com obesidade grau II ou III, sem diabetes, com 45 anos ou mais e com doença cardiovascular. Contudo, a comissão recomendou a não incorporação devido ao impacto orçamentário estimado entre R$ 2,6 bilhões e R$ 4,6 bilhões em cinco anos, além de incertezas sobre o tempo de uso e a necessidade de acompanhamento multiprofissional.
Somente em junho, pouco antes da campanha eleitoral, o Ministério da Saúde autorizou um projeto experimental em parceria com o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre. O estudo Real-Bari acompanhará cerca de 250 pacientes do SUS com obesidade grave ou associada a outras doenças, avaliando a eficácia e os custos do tratamento com semaglutida, com resultados esperados para 2027.
O Que Há no Mercado e o Futuro no SUS
O anúncio de Lula não especificou qual medicamento seria ofertado. No entanto, os estudos em andamento no Ministério da Saúde utilizam a semaglutida como base. Essa substância, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, imita a ação do GLP-1, auxiliando no controle do apetite e da glicose.
Outros princípios ativos, como a liraglutida (Victoza, Saxenda) e a tirzepatida (Mounjaro), também atuam em sistemas hormonais relacionados ao controle do peso e diabetes, mas com indicações e registros sanitários específicos. A semaglutida, por exemplo, teve sua patente expirada em março de 2026, abrindo espaço para a entrada de novos produtos no mercado e uma consequente redução de preços.
Segundo o Ministério da Saúde, o número de medicamentos registrados no país aumentou para 14, com preços até 70% menores. As doses iniciais, que antes custavam cerca de R$ 1 mil, agora podem ser encontradas por R$ 300, o que, segundo especialistas como Rivalino Cardoso, traz uma “perspectiva de pelo menos viabilidade econômica para a incorporação desse medicamento ao SUS”.
Desafios Orçamentários e Critérios de Acesso
Apesar da redução de preços, a incorporação das canetas emagrecedoras ao SUS ainda enfrenta obstáculos significativos, principalmente no que diz respeito ao financiamento. A medida não está prevista no Orçamento de 2027, o que exigirá cortes ou remanejamentos de outras despesas, além de pressionar os limites fiscais estabelecidos pelo arcabouço fiscal.
Alexandre Andrade, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), aponta que, em último caso, a implementação poderia demandar a criação de um novo imposto. Alexandre Manoel, da Global Analytics, sugere que o custo deve ser comparado às despesas evitadas com as complicações da obesidade, mas enfatiza a necessidade de definir claramente os pacientes elegíveis e as condições para o benefício clínico e econômico.
“Sem fonte orçamentária, critérios de acesso e avaliação robusta, não seria adequado presumir que uma incorporação ampla se pagaria pelas economias futuras”, pondera Manoel. O Ministério da Fazenda não respondeu sobre o impacto fiscal da medida até o fechamento da reportagem.
Critérios para Receber as Canetas Emagrecedoras
A definição de quem terá acesso às canetas emagrecedoras dependerá dos resultados do estudo do GHC e das análises da Conitec. Especialistas como Neuton Dornelas Gomes, presidente da SBEM, defendem que o diagnóstico bem definido de obesidade seja o critério primordial.
Outros fatores a serem considerados incluem a presença de doenças associadas, como diabetes e cardiopatias, além da faixa etária. É fundamental, segundo Dornelas, que a iniciativa não se limite à entrega do medicamento, mas inclua um acompanhamento contínuo e multiprofissional dos pacientes para garantir a eficácia e a segurança do tratamento a longo prazo.
Hohl, da Abeso, alerta para a importância de definir a dose adequada para cada paciente, ressaltando que as doses utilizadas para tratamento da obesidade são diferentes das empregadas no tratamento do diabetes. “Não adianta dizer que vai ser dado para um nicho de pacientes com uma dose insuficiente. Isso não vai funcionar”, conclui.