A estratégia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de associar sua pré-candidatura presidencial a figuras conservadoras internacionais ganha um novo capítulo com a visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao Brasil. Milei participará da convenção nacional do PL em São Paulo, um evento que marca o início oficial da campanha de Flávio e que busca capitalizar o prestígio do argentino junto ao eleitorado de direita.
Esta aproximação se soma à agenda externa já estabelecida por Flávio Bolsonaro, que incluiu uma visita à Casa Branca em maio para se reunir com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A presença de Milei não é vista como um mero gesto protocolar, mas sim como uma peça fundamental para fortalecer os laços com lideranças da direita brasileira e reforçar o alinhamento com governos de perfil semelhante na América Latina.
A visita de Milei ao Brasil, que não prevê encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclui uma agenda política focada no fortalecimento de conexões com a direita brasileira. O presidente argentino também se encontrará com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A articulação internacional de Flávio Bolsonaro busca explorar o apelo de líderes como Milei para impulsionar sua candidatura, conforme informações divulgadas pela imprensa.
Milei: Um Símbolo da Onda Conservadora na América Latina
Para os aliados de Flávio Bolsonaro, a presença de Javier Milei na convenção do PL carrega um peso simbólico significativo. O presidente argentino é considerado uma das principais referências do campo conservador na América Latina, e seu apoio é visto como um reforço para a candidatura do senador às vésperas do início oficial da campanha eleitoral no Brasil. O PL pretende explorar o prestígio de Milei para consolidar sua base.
Segundo o cientista político Elias Tavares, a influência de Milei sobre a direita brasileira é predominantemente simbólica e discursiva. Ele destaca que Milei se tornou uma referência por personificar um líder antissistema, cuja comunicação agressiva e promessas de mudanças profundas dialogam diretamente com parte do eleitorado conservador brasileiro. Essa figura se alinha fortemente ao bolsonarismo.
Tavares pontua que a identificação da base conservadora com Milei está mais ligada ao personagem político do que às medidas concretas de seu governo. A influência de Milei se manifesta mais na linguagem, na estética e no comportamento político, dialogando fortemente com o bolsonarismo, mas sem representar necessariamente toda a centro-direita brasileira. A foto com Milei pode mobilizar a base mais ideologizada, mas seu impacto em eleitores moderados é considerado limitado.
Trump e a Estratégia de Alianças Internacionais de Flávio Bolsonaro
A aproximação com Javier Milei faz parte de uma estratégia mais ampla de Flávio Bolsonaro, que tem intensificado sua interlocução com Donald Trump. Em maio, Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca, onde discutiram temas como segurança pública e cooperação bilateral. No dia seguinte, os EUA classificaram o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras, medida defendida por Flávio e explorada por seus aliados.
Para o cientista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, segurança pública, soberania nacional e relações com os Estados Unidos ganharão cada vez mais espaço na disputa presidencial. A relação entre Lula, Flávio Bolsonaro e Trump será observada de perto, com eventos internacionais influenciando diretamente o debate político brasileiro. Essa aproximação com Flávio se insere na estratégia de Trump de apoiar aliados conservadores na América Latina.
A cúpula do PL aposta que a associação de Flávio com Trump é um ativo eleitoral. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, acredita que o apoio formal de Trump fortaleceria a candidatura de Flávio e melhoraria as relações entre Brasil e Estados Unidos, atraindo investimentos. No entanto, uma pesquisa PoderData/Aya revelou que 42% dos entrevistados considerariam um endosso de Trump um impacto negativo para um candidato presidencial.
Impedimento de Encontro com Bolsonaro e o Impacto da Pesquisa
A visita de Javier Milei ao Brasil não incluirá um encontro com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. O plano de Milei de visitá-lo foi inviabilizado por uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que manteve restrições a visitas sociais ao ex-presidente. A impossibilidade do encontro foi um revés para a articulação política.
A pesquisa PoderData/Aya, divulgada em julho, indica que o apoio de Donald Trump a um candidato presidencial pode ter um efeito ambíguo. Enquanto 32% dos entrevistados veem o apoio como positivo, 42% o consideram negativo, e 20% afirmam que não faria diferença. A pesquisa ouviu 2.400 eleitores em todo o país, com margem de erro de dois pontos percentuais.