Lulinha: O Filho de Lula que Virou Lobista Milionário e é Investigado pela PF
Em 2002, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ganhava R$ 600 por mês como monitor no Zoológico de São Paulo. Sua vida era dedicada a explicar aos visitantes o comportamento dos animais, longe de qualquer sinal de vocação para negócios. Hoje, aos 51 anos, o filho mais velho do presidente Lula está novamente sob investigação da Polícia Federal.
O caso atual envolve uma lobista, viagens internacionais custeadas por terceiros e pessoas com acesso privilegiado ao presidente. Essa nova fase de investigações reacende o debate sobre a ascensão financeira de Lulinha em pouco mais de duas décadas, um salto impressionante do zoológico para o mundo do dinheiro e do poder.
Considerado por muitos a figura mais citada e menos ouvida da era lulista, Lulinha tem sua imagem frequentemente construída por terceiros, como sua mãe, amigos, advogados e o próprio pai. Essa blindagem, que parece começar pela sua discrição pública, é um dos pontos centrais das apurações. Conforme revelado em reportagens, as investigações atuais seguem a linha de apurações anteriores da Lava Jato envolvendo suas empresas.
A Ascensão Financeira e a Gamecorp
Fábio Luís nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Sua infância foi marcada pelo ambiente político e sindical de seu pai. Sua trajetória profissional deu um salto significativo em 2003, quando os irmãos Fernando e Kalil Bittar, amigos de infância e filhos de um antigo companheiro de Lula, o convidaram para fundar a Gamecorp, uma empresa de entretenimento.
Em 2005, a Telemar, que viria a se tornar a Oi, investiu R$ 5 milhões na Gamecorp. Esse investimento, segundo as investigações, teria sido facilitado pela posição de Lula como presidente da República. Pouco tempo depois, Jonas Suassuna, dono de metade de um famoso sítio em Atibaia atribuído a Lula, tornou-se sócio da empresa.
As empresas de Suassuna, de acordo com a Polícia Federal, receberam R$ 66,4 milhões da Oi entre 2004 e 2016. Um ex-diretor comercial do grupo de Suassuna descreveu que essas empresas obtinham um tratamento diferenciado na operadora, com projetos aprovados diretamente pela presidência, sem análise comercial. Ele afirmou que a sociedade com Fábio Luís funcionava como uma “fachada necessária para que todos realizassem seus negócios através da ligação familiar”.
Operação Mapa da Mina e o Pedido de Prisão
O cerco à Gamecorp se intensificou no final de 2019 com a deflagração da Operação Mapa da Mina, que investigou R$ 132 milhões repassados pela Oi e pela Vivo a empresas ligadas a Lulinha e seus sócios. A Polícia Federal chegou a pedir a prisão de Fábio Luís, mas o pedido foi negado pela Justiça.
Após a operação, os sócios começaram a se afastar. Jonas Suassuna deixou o negócio em fevereiro de 2020, e em maio do mesmo ano, Fábio e os irmãos Bittar venderam os 70% restantes da Gamecorp, então rebatizada de G4 Entretenimento.
Em janeiro de 2022, a Justiça Federal em São Paulo arquivou o caso. A decisão ocorreu após o STF questionar a atuação de Sergio Moro no processo e considerar que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era a instância competente. As provas obtidas foram anuladas, e o Ministério Público Federal concluiu que não havia elementos válidos para sustentar uma denúncia, resultando na ausência de condenação.
A “Modéstia Calculada” e a Blindagem Jurídica
Em uma carta aos funcionários durante a venda de sua participação na Gamecorp, Fábio Luís descreveu sua experiência como uma “longa escalada, em um terreno muito íngreme, sempre contra o vento e as tempestades”. Ele se colocou como injustiçado, afirmando que nenhum negócio foi tão “vasculhado, por tanto tempo”, e criticou o que chamou de “massacre” da imprensa, alegando que nunca conseguiram provar irregularidades.
A carta termina com um tom de modéstia, lembrando que, apesar de anos à frente de uma empresa de tecnologia, ele ainda se considera um biólogo. Essa discrição e a busca por blindagem parecem ser uma estratégia de proteção.
Na esfera jurídica, Fábio Luís contou com a defesa de Cristiano Zanin, que atuou em casos como o da Gamecorp e, posteriormente, assumiu a defesa de Lula na Lava Jato, chegando ao STF em 2023. Atualmente, Marco Aurélio de Carvalho, fundador do grupo Prerrogativas e amigo de Lula, coordena uma espécie de blindagem jurídico-política para Lulinha, defendendo-o publicamente e em artigos na imprensa.
Mudança para a Espanha e a Vida Reservada
Fora dos holofotes, Fábio Luís sempre manteve uma vida reservada. Ele morou em um apartamento alugado cujas despesas eram bancadas por uma empresa ligada a Jonas Suassuna. Posteriormente, mudou-se para um imóvel de alto padrão comprado e reformado por Suassuna.
Em meados de 2023, a família se transferiu para Madri, na Espanha. Segundo amigos, a mudança ocorreu para evitar a “perseguição brutal” e proteger os filhos, que eram “humilhados na escola diariamente”. No entanto, outros relatos descrevem a vida na Espanha como de “condições espartanas” e “precárias”, com a garantia de que ele “não é um cara rico”.
A discrição de Fábio Luís não se limita à sua vida pessoal, mas também marca sua relação com os irmãos. Uma investigação sobre repasses financeiros entre empresas de Fábio, Marcos Cláudio e Sandro Luís, entre 2016 e 2017, foi arquivada por falta de provas em 2021, após a anulação de evidências da Lava Jato.
A Lobista Roberta Luchsinger e Novas Investigações
Um dos nomes centrais nas novas investigações é Roberta Luchsinger, lobista e amiga íntima de Lulinha e sua esposa. A proximidade entre elas, evidenciada por tatuagens e pela convivência em Brasília, onde Lulinha chegou a dormir em sua casa, levanta suspeitas.
A Polícia Federal suspeita que essa amizade tenha um lado financeiro. Roberta teria pago despesas de Lulinha em Brasília e bancado viagens internacionais. Ela também o apresentou a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como operador de fraudes em aposentadorias.
A investigação avançou a partir de Roberta para Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, chefe do gabinete pessoal de Lula. A PF identificou repasses de Roberta para Marcola, que alega terem sido um empréstimo quitado. Essa conexão entre Lulinha, Roberta, o “Careca do INSS” e o homem que controla o acesso ao presidente colocou Fábio Luís novamente sob os holofotes da PF.
Mais de vinte anos após deixar o zoológico, Fábio Luís Lula da Silva continua sendo o filho que, segundo relatos, escolheu o silêncio e a discrição como estratégia de proteção, contrastando com a figura pública de seu pai. A reportagem tentou contato com o advogado de Lulinha, Guilherme Suguimori, mas não obteve retorno.