O Brasil afunda em problemas éticos, políticos e de gestão, não em falta de recursos, segundo análise de Samuel Hanan.
O país frequentemente culpa a escassez de verba por seus entraves ao desenvolvimento e à melhoria da vida digna de seus cidadãos. Contudo, essa visão é um sofisma, segundo Samuel Hanan, engenheiro com especialização em macroeconomia e ex-vice-governador do Amazonas.
A economia brasileira, embora com desafios, não é o principal gargalo. A verdadeira tempestade que assola o país é formada por uma combinação perigosa de **degradação ética, instabilidade política e má gestão pública**, conforme aponta Hanan em sua análise.
Esses fatores, interligados, geram um ciclo vicioso de ineficiência e desperdício, minando o potencial de crescimento e bem-estar social. A falta de recursos, portanto, seria uma consequência, e não a causa raiz dos problemas nacionais. A Folha de S. Paulo, em 01.08.2025, divulgou dados preocupantes sobre a dívida pública e o déficit fiscal.
A Corrosão Ética e a Lei de Gérson no Poder
A **corrupção**, as **mentiras**, as **falsas narrativas** e a **impunidade** são manifestações claras da deterioração ética na classe política. Essa realidade contamina a sociedade, reforçando a ideia de que o crime compensa e que o sucesso a qualquer custo é o caminho a seguir, numa clara vigência da **Lei de Gérson**.
A introdução da **reeleição para cargos do Executivo em 1997** incentivou governantes a focarem em mandatos futuros em detrimento da gestão presente. Os **governos de coalizão** se transformaram em **governos de cooptação**, marcados pelo constante **toma-lá-dá-cá** e pela concessão indiscriminada de privilégios.
Gigantismo e Ineficiência: O Custo da Má Gestão
As consequências diretas dessa conjuntura são **problemas graves de gestão** e **dificuldades de governança**. O resultado é uma máquina pública inchada e ineficiente, com **gastos tributários exorbitantes** e um **déficit público descontrolado**.
O governo brasileiro, em suas três esferas (União, estados e municípios), gasta **12,5% do Produto Interno Bruto (PIB)** para sustentar a máquina pública. Esse índice é significativamente superior à média de **9,8% do PIB** investida pelos países da OCDE, representando um **desperdício anual de 2,7% do PIB**, equivalente a cerca de **R$ 315 bilhões**.
Gastos Tributários e Corrupção: Um Dreno Bilionário nos Cofres Públicos
O Brasil deixa de arrecadar o equivalente a **5% do PIB** com a concessão de **renúncias fiscais**, agora chamadas de gastos tributários. Notavelmente, governos ligados ao PT foram responsáveis por mais de três quartos dessas renúncias.
Isso representa um desperdício de **3% do PIB**, cerca de **R$ 350 bilhões anuais**, por não cumprimento da Emenda Constitucional nº 109 de 2021, que limita esses benefícios a 2% do PIB em oito anos.
A **corrupção** por si só consome entre **2,5% e 3,0% do PIB**, segundo estimativas. Embora erradicá-la totalmente seja utópico, uma redução eficaz, com punição severa e devolução de valores, poderia liberar cerca de **2% do PIB** (aproximadamente **R$ 234 bilhões**) anualmente para investimentos.
O Potencial de Economia e o Caminho para a Recuperação
Ao atacar essas três frentes – ineficiência da máquina pública, gastos tributários e corrupção – o Brasil poderia economizar cerca de **R$ 900 bilhões por ano**, o que representa **7,7% do PIB**. Este montante seria suficiente para diversas ações sociais e fiscais importantes.
Com esses recursos, seria possível **isentar do Imposto de Renda** quem ganha até R$ 5.000,00 mensais, **corrigir o Bolsa Família em 10%** e atender demandas de programas como o Pé-de-Meia e a Farmácia Popular. Sobraria ainda para **investimento em infraestrutura** e para a **eliminação do déficit primário**.
A eliminação do déficit abriria caminho para a redução da taxa Selic, atualmente em 15%. Cada ponto percentual a menos na Selic gera uma economia de **R$ 90 a R$ 100 bilhões por ano** para o governo. Uma redução de três pontos percentuais ao longo de três anos resultaria em uma poupança adicional de **R$ 270 a R$ 300 bilhões anuais**.
Dívida Pública e Dívida Nominal: Alertas Vermelhos para o Tesouro
A dívida pública totaliza **R$ 9,30 trilhões**, correspondendo a cerca de **76,6% do PIB**, podendo chegar a 80% segundo o Banco Mundial. O **déficit público primário de 0,5% do PIB** e o **déficit nominal superior a 9% do PIB** (cerca de **R$ 1,20 trilhão**) evidenciam a falta de competência administrativa para conter o crescimento dessa dívida.
Hanan cita o filósofo romano Marco Túlio Cícero, que, antes de Cristo, já defendia o equilíbrio orçamentário, a reposição do tesouro público, a redução da dívida, o controle da arrogância dos funcionários públicos e o fim da ajuda externa, incentivando o trabalho em vez da dependência do Estado.