
O pacote do governo federal anunciado no segundo semestre deve custar cerca de R$ 242 bilhões até 2030, somando novas despesas e renúncias de receita. O cálculo é de Alexandre Seijas de Andrade, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado Federal.
Os valores não incluem a inflação do período e colocam o tema no centro da discussão do Orçamento de 2027, que o Congresso precisa votar até o fim do ano.
Os números do pacote
Segundo o levantamento, R$ 180 bilhões correspondem a despesas recorrentes, o equivalente a cerca de R$ 45 bilhões por ano até o fim da década. Outros R$ 62 bilhões são gastos pontuais concentrados em 2026 e 2027.
Entre os principais itens estão:
- reajuste de 15,04% do Bolsa Família, que repõe a inflação de março de 2023 a agosto de 2026, com custo de R$ 23,4 bilhões por ano;
- subvenções a combustíveis, de R$ 36,2 bilhões, concentradas em 2026;
- R$ 78,5 bilhões em crédito liberado em 2026, em programas como Move Brasil e Desenrola, cujo custo está nos juros subsidiados.
Impacto no Orçamento e na dívida
Os R$ 45 bilhões anuais equivalem a cerca de um terço das despesas discricionárias previstas no projeto do Orçamento de 2027, estimadas em R$ 138 bilhões. Pelas contas da IFI, as medidas adotadas após o primeiro semestre elevam a dívida bruta em cerca de 1 ponto percentual do PIB em 2026.
“A maior parte do pacote não aparece na meta, mas aparece na dívida”, resumiu o diretor da IFI. Segundo ele, a meta fiscal de 2026 deve ser cumprida formalmente, com os descontos previstos em lei.
O que diz o governo
O Ministério do Planejamento e Orçamento estima um remanejamento de cerca de R$ 20 bilhões para acomodar as medidas no Orçamento de 2027, pouco mais de 1% da despesa primária sujeita ao limite de gastos. Em nota, o Ministério da Fazenda afirmou que os ajustes serão compatíveis com a meta de resultado primário e com o arcabouço fiscal, e que as medidas sobre combustíveis são temporárias.
Entre economistas, as avaliações variam. Manoel Pires, do FGV Ibre, avalia que o reajuste do Bolsa Família cabe no Orçamento “sem maiores problemas”, mas que a peça de 2026 precisa de ajustes. Felipe Salto, da Warren Investimentos, defende aguardar a reavaliação de receitas e despesas para separar o que é pontual do que é permanente.
Leitura do Jogo Político
Encerrada a eleição, a conta das medidas chega ao Congresso. O governo aposta em remanejamentos internos para manter o arcabouço de pé; parte dos analistas alerta para o efeito sobre a dívida. A votação do Orçamento de 2027, ainda com a atual composição do Parlamento, será o primeiro teste dessa equação.