Mauro Vieira sugere que acordo diplomático liderado por Lula em 2010 poderia ter evitado a atual tensão com o Irã.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apresentou uma perspectiva controversa sobre a política externa brasileira durante audiência na Câmara dos Deputados. Ele afirmou que uma iniciativa diplomática conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010, conhecida como a Declaração de Teerã, tinha o potencial de evitar o atual cenário de instabilidade global envolvendo o Irã e seu programa nuclear.
Segundo Vieira, o avanço da Declaração de Teerã poderia ter impedido o acúmulo de material nuclear enriquecido em níveis críticos, além de ter evitado que o mundo chegasse à situação de tensão observada atualmente. A declaração visava a troca de urânio pouco enriquecido pelo Irã por combustível nuclear, sob supervisão internacional.
No entanto, a proposta brasileira, articulada em conjunto com a Turquia, enfrentou ceticismo e foi rejeitada por potências como os Estados Unidos. Conforme informações divulgadas pelo g1, mensagens diplomáticas vazadas pelo WikiLeaks indicam que o governo americano já percebia, em 2005, esforços do então chanceler Celso Amorim para dificultar negociações dos EUA com o Irã. Essas ações incluíam manobras na ONU contra sanções nucleares e a oposição a mandados de busca contra suspeitos de envolvimento no atentado à AMIA, em Buenos Aires.
A Declaração de Teerã e o Ceticismo Internacional
A Declaração de Teerã, proposta em 2010, previa o envio de cerca de 1.200 kg de urânio pouco enriquecido do Irã para a Turquia, em troca de combustível nuclear. O objetivo era reduzir o estoque sensível iraniano e criar um mecanismo de confiança, prevenindo novas sanções e escaladas diplomáticas. Contudo, a iniciativa foi considerada insuficiente pelas principais potências globais.
O estrategista internacional Cezar Roedel avalia que a Declaração de Teerã foi vista com ceticismo por ser uma iniciativa considerada fraca e sem poder de barganha real. Ele aponta que a proposta carecia de capacidade de pressão estratégica, o que comprometeu sua credibilidade internacional. Na prática, o Irã continuou avançando em seu programa nuclear, reforçando a percepção de impacto limitado do acordo.
Críticas ao Acordo e o Padrão de Comportamento dos EUA
Entre as críticas à Declaração de Teerã, destaca-se a ausência de limites para o enriquecimento contínuo de urânio pelo Irã e as dúvidas sobre a suficiência da quantidade de urânio a ser enviada para mitigar riscos. Roedel também ressalta que declarações desse tipo frequentemente não são cumpridas, citando o Acordo de Munique como um exemplo histórico de promessa de paz que não se concretizou.
Mauro Vieira, por sua vez, criticou o que chamou de um padrão de comportamento dos Estados Unidos em processos de mediação internacional. Ele comparou a frustração de autoridades de Omã, que atuam como mediadoras no conflito atual, com a decepção brasileira em 2010. Segundo o ministro, em ambos os casos, os EUA teriam inicialmente incentivado a mediação e definido parâmetros para um acordo, mas recuaram posteriormente sem explicações claras, optando por ações mais agressivas.
A Influência Iraniana e a Percepção dos EUA
Um documento secreto da diplomacia americana, datado de julho de 2008, expressava preocupação com o aumento do foco brasileiro no Oriente Médio, coincidindo com esforços iranianos para expandir sua influência na América Latina. A expectativa era de que o Irã buscasse formar uma frente para resistir aos Estados Unidos.
Vieira enfatizou que, mesmo com uma carta pessoal do então presidente Barack Obama incentivando o esforço diplomático brasileiro em 2010, os norte-americanos não honraram os entendimentos alcançados. Ele apontou semelhanças entre as negociações recentes e as de 2010, indicando um padrão de comportamento que leva ao fracasso das tentativas de pacificação e que, segundo ele, poderia ter evitado a atual crise nuclear e a guerra no Irã.