
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em dúvida a eleição brasileira dois dias depois do segundo turno que deu a Lula o quarto mandato. Em conversa com jornalistas na segunda-feira (26), Trump disse que a disputa “pareceu fraudada” e criticou a prorrogação do horário de votação, sem apresentar provas. A resposta veio do vice-presidente reeleito, Geraldo Alckmin, que classificou a opinião como “totalmente equivocada”.
O que Trump disse
Segundo o relato da imprensa, Trump afirmou que a eleição “pareceu ruim” pelo jeito como foi organizada, com a prorrogação do prazo de votação, que ele chamou de “muito estranha”. Ele não detalhou a acusação.
Na mesma conversa, o presidente americano adotou um tom diferente ao falar de Lula. Disse que gosta do brasileiro, que os dois se dão “muito bem” e que não escolheu um lado na disputa. Questionado se poderia fazer algo em relação ao resultado, respondeu que governa os Estados Unidos, e não o Brasil.
A resposta de Alckmin
Em entrevista a uma emissora do interior de São Paulo, Alckmin rejeitou a fala. Para o vice, não se interfere na política de outro país, e o Brasil é referência em urna eletrônica e segurança jurídica. “Na democracia, você ganha eleição, você perde”, resumiu.
Alckmin também tratou da relação comercial com os americanos. Ele disse que o Brasil segue negociando com os Estados Unidos depois da eleição e lembrou os acordos do Mercosul com Singapura e com a União Europeia, além da conversa avançada com o Canadá. Segundo ele, o país bateu recorde de exportações mesmo com o tarifaço.
O contexto da votação estendida
A crítica de Trump mira a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que no domingo (25) ampliou em duas horas o horário de votação, até as 19h, depois de relatos de restrições ao transporte coletivo em várias cidades. A extensão valeu apenas para as seções que ainda não tinham sido encerradas.
O discurso do americano repete a linha adotada pela campanha de Flávio Bolsonaro, derrotado no segundo turno, que contesta o resultado e promete pedir a anulação do pleito. O próprio PL, partido de Flávio, já reconheceu a vitória de Lula, que teve mais de 64 milhões de votos.
A fala também chega depois de meses de tensão entre os dois países. Em setembro, 31 parlamentares democratas dos EUA enviaram carta à Casa Branca criticando o que chamaram de esforço coordenado do governo Trump para favorecer Flávio, citando o tarifaço e as sanções aplicadas ao ministro Alexandre de Moraes.
Leitura do Jogo Político
A declaração de Trump tem peso no ambiente político e dá fôlego ao discurso de contestação da oposição, mas não tem efeito sobre o resultado, já proclamado pela Justiça Eleitoral. A ambiguidade da fala — dúvida sobre a eleição e elogio a Lula na mesma frase — indica que Washington deve manter o canal aberto com o Planalto. O termômetro real da relação será a negociação do tarifaço nas próximas semanas.
Foto: Casa Branca (domínio público)